Marulho

Sua cabeça cheia de trópicos e vento

minha orelha e sua orelha ouvem as ondas no labirinto

palavras de mar

em minha cabeça mares de palavras

o barulho caucário dos seus dentes no seu sorriso

sua voz, um fio de vento com cores sonoras amarra meu pensamento

seus passos andam a deixar também meus passos pelos chãos:

seu corpo corado carregando um coração comigo dentro

pés-peixes, escama-se os dias

a areia do tempo molhada, a tarde cor de nácar

colher as pedrinhas das águas, trazer os pedaços do chão que te viu lembrar de mim

memória dos teus passos

a sua memória na minha memória

Contemplação

passei, a gente toda passa

os pássaros passaram

a balança com a menina balança

outras cores chegam no céu de seda

a pipa escorrega de lá

nem vento, nem ruga n’água

só nos dedos da velha que passa

e pega do chão a flor pisada

e leva

e no fim o pouso

e o repouso

Pajarístico

OBSERVACIONES RELACIONADAS CON LA EXUBERANTE
ACTIVIDADE DE LA “CONFABULACION FONETICA” O “LENGUAJE
DE LOS PAJAROS” EN LAS OBRAS DE J.P.BRISSET, R: ROUSSEL, M:
DUCHAMP Y OTROS

a. A través de su canto los pajáros
comunican una comunicación
en la que dicen que no dicen nada.

b. El lenguaje de los pájaros
es un lenguaje de signos transparentes
en busca de la transparencia dispersa de algún significado.

c. Los pájaros encierran el significado de su propio canto
en la malla de un lenguaje vacío;
malla que es a un tiempo transparente e irrompible.

d. Incluso el silencio que se produce entre cada canto
es también un eslabón de esa malla, un signo, un momento
del mensaje que la naturaleza se dice a sí misma.

e. Para la naturaleza no es el canto de los pájaros
ni su equivalente, la palabra humana, sino el silencio,
el que convertido en mensaje tiene por objeto
establecer, prolongar o interrumpir la comunicación
para verificar si el circuito funciona
y si realmente los pájaros se comunicán entre ellos
a través de los oídos de los hombres
y sin que estos se den cuenta.

NOTA:
Los pájaros cantan en pajarístico,
pero los escuchamos en español.
(El español es una lengua opaca,
con un gran número de palabras fantasmas;
el pajarístico es una lengua transparente y sin palabras).

Juan Luis Martínez

Passo comum

Foto: Luís Bahú

Foto: Luís Bahú

e tudo é tão mecânico
e tem em tudo tanto mistério

a pomba que se apoia sobre o pé embolado
um choque: e nada de novo (muda) em seu ciscar tranquilo
um par de tênis pendurado nos fios elétricos
os pés invisíveis pairam
e que presságio, que história traz?

os remédios não servem para os debeis por algo mais,
é mais fatídica a dormência que a dor
uma bala embalada pendula nos fios elétricos
o sabor do tempo conservado
e que lenda é ela, que tradição?

uma menina diante da janela cibernética o mundo vê,
um velho cospe da varanda à rua, num hábito comum
de alívio
a senhora abençoa o neto na partida
num gesto comum do verbo na mística ancestral

e do outro lado da rua um sonho em forma de automóvel
cor de prata
no moço que vai não sei pra onde um pensamento vai
a mecânica e os pomos impalpáveis da ciência

quão alto voara aquele pipa?
carcaça de seres celestes
voando preso aos fios elétricos

a energia vai para os destinos impregnada do mistério
do comum das ruas

uma bola no campo rola
pelo asfalto desembola
e os muleques são irmãos
e são astros do faz de conta
televisivo das ruas

e como eu palmilhasse um chão comum
sigo com os olhos pensos sobre esta poesia
comum…

Todas as verdades esperam em todas as coisas

Todas as verdades esperam em todas as coisas

Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles