“Em travessia com Carina Castro”, prefácio de “Caravana” por Nina Rizzi

e esse desejo tão puro de uma delicadeza terrível/ um silêncio que se abra no poema. – “PREFÁCIO”, Nina Rizzi, in.: A duração do deserto

…em travessia com Nina Rizzi

Um dos grandes prazeres de publicar um livro foi ganhar este escrito, que é um presente muito especial, vindo dessa mulher que admiro imensamente como artista, mulher e amiga. Inclusive este encontro nosso foi muito bonito e importante para mim, pois me deparei com a poesia de Nina Rizzi quando estava num momento de desilusão poética, onde não via nada de novo dentro do novo, nada que me excitasse (a também escrever) e o contato com seu olhar como que fez surgir um oásis de inspiração e esperança em mim, e insisti na poesia, que passei a ver com outros olhos. Assim como ela viu em minha poesia algo que nem eu tinha visto, e contribuiu imensamente pra minha confiança nos passos como escritora, fez com que acreditasse na minha poesia, que sou eu, logo, acreditar em mim. Pra ela dedico meu amor e poesia.

E também descobri através de um dos projetos de arte de Nina, a Revista Ellenismos, outro/as poetas brilhantes e inspiradore/as.

Passamos por muita vida e processos profundos, nossas poesias se encontram, na estiagem e na umidade que há em nós, e atravessamo-nos uma a outra enquanto trilhamos o silêncio e as vozes de nosso próprio adentro.

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abertura

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O silêncio se retira com o pedido dos pássaros

Ainda há orvalho sobre os olhos que sonham

A cidade está distante deste chão coberto por tapetes e poeira

que ainda não pisaram neste dia

Espera-se o quanto pode pelo aroma do café

Se esquece o que foi noite corpo adentro.

Litoral

Litoral

Foto: Oleg Oprisco

para Carina Carvalho

que se chamasse tudo de mar nada sobraria nas mãos
e tudo seria aquoso e insólito

pétreos pássaros brancos
cercam as ondas, desde a orla
e a cabeleira de alvas cãs descabelada de vento vem
nuvens rotas, desgrenhadas em farelos

estão molhadas as litogravuras de seu esboço
e estendidas ao vento como velas brancas
fremindo na neblina branca
e as aves-fantasmas pousam na paisagem

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daqui se vê os barcos pregados à superfície
costurados no espelho
e a outra ponta de cidade ao longe parecendo sempre navegando para o distante
litogravada na memória do mar
seus olhos capturados por redes de pedra

gravada a matéria marítima
o mar imenso dizendo a imensa voz de caymmi
o silêncio das areias não dizendo

Fantasia: o delírio e as cinzas

Favela com tintureiro -Heitor dos Prazeres

Favela com tintureiro -Heitor dos Prazeres

O OUTRO CARNAVAL

Carlos Drummond de Andrade

Fantasia,
que é fantasia, por favor?
Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?
Ou antes, e principalmente,
brinquedo sigiloso, tão íntimo,
tão do meu sangue e nervos e eu oculto em mim,
que ninguém percebe, e todos os dias
exibo na passarela sem espectadores?

 

 

EVOCAÇÃO

Carina Castro, Caravana

 

Manuel, as pombas

estão comendo os confetes!

Sai desta tumba!

Bota uma fantasia!

Olha as pessoas nas ruas, nos ônibus:

pierrôs, palhaços, papangus com sua terríveis

castanholas,

abelhas, tigresas, minnie’s e uma triste

colombina.

 

Faz calor, tua cidade está ainda

mais velha, mas há cores

há o metrô se queres chegar mais rápido,

mas ele vai pra lugar nenhum.

 

Os pregões não são mais os mesmos

de certo, mas podes tomar uma cervejinha gelada,

lhe fará bem!, a oferta é tanta,

e tem salgados a preços módicos.

 

Os metais do frevo já estão fervendo,

mas não se empolgue tanto,

não precisa entrar na banda,

cuidado com os pulmões!

 

A cidade continua velha

e sempre será antiguidade,

não se assustará tanto.

Traga uma marchinha

improvisada no bolso.

 

Sentimos falta da tua

companhia impagável.

Debaixo das cascas das paredes

está o tempo

e a tinta da restauração

não apagou tua memória,

no letreiro luminoso

de algum ônibus ainda

verá a Rua do Sol,

e em meio a festa verá

tua infância, ainda há muitos

paralelepípedos e vielas.

 

Há meninos de rua lá,

mas seremos todos meninos de rua.

Vem, Manuel, que a 4ª feira se aproxima,

e ninguém ainda viu nas ruas a fantasia de poeta.

 

 

 

FANTASIA NA PRAIA

Carina Castro, Caravana

 

a beira praia meio-dia posto

a fantasia rota,

odores sudoríparos

 

a cidade em festa despeja sobre si o que da festa sobra

 

os lixos maleavam com as ondas

chinelos, cabelos, destinos, plásticos em desuso

e os barcos

 

trazia ao corpo a guardachuvista

azul e vermelho ~o céu bem limpo, o sol queimando~

os cabelos desgrenham-se com o sopro dos monstros marítimos

 

os olhos afogados

 

apregou-se à fantasia, incorporou a roupa da puída personagem

nem mais usada em carnavais

 

areia, vestígios de si

 

as ondas, os dejetos

 

 

 

EPÍGRAFE
Manuel Bandeira, Carnaval
 
Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e per-
guntou tristemente – se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do
frangalho de fantasia do que do seu ar de extre-
ma penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sor-
riso se lhe transmudou em ricto amargo. E os
olhos ficaram baços, como duas poças de água
suja…Então, para cortar o soluço que adivi-
nhei subindo de sua garganta, puxei-a para ao pé
de mim, e com doçura:
– Tu és a minha esperança de felicidade e
cada dia que passa eu te quero mais, com perdida

volúpia, com desesperação e angústia…

Coisas que não há que há

~ 2013 se esvai na ampulheta e quase nos leva junto, em muitos momentos pensei pisar em areia movediça, mas era apenas o movimento da mudança, tão necessária. Este ano foi muito intenso, e muito marcante pra mim, entre outros motivos pelo advento do Caravana, minha cria, que está aos poucos aprendendo a andar sozinha e espero que do ano que vem em adiante ganhe o mundo, pois antes eu tinha vergonha de mostrar meus escritos, mas é tão belo ver o encontro das pessoas com a poesia e o que isso causa nelas!
Outros projetos já estão no forno, e mais outros virão à tona e espero que bons ventos soprem para todos, seja um ano suave pra cabeça, porém que continuemos tocando em direção a um lugar melhor para se existir, seja ao nosso redor ou dentro de nós, e o estalar da mudança continue movimentando O Carro que é este mundo, e o Arcano que regerá o ano.

Sou tão agradecida aos integrantes de minha caravana, os amigos queridos que comigo atravessam os desertos. Então bom recomeço de ciclo e de si, boa viagem e aproveite as coisas boas do caminho, pois os cães ladram, mas a caravana não para!

Beijos!

Que inventemos muitas paisagens para ver e que nos reinventemos em 2mil&qüatorze!

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Manuel António Pina