mantra matinal

000272200020

abro a manhã com as mãos
não à força
mas com força sutil
traço no papel o esboço do dia

entoo pontos cantados
danço por entre nuvens aromáticas
leveza no ar
vibro
pequenos ritos para
desembrulhar o presente
abrir caminhos

corto as frutas com doce lâmina
inauguro a janela com nova cortina
para tudo que me toca as retinas, um olhar
em cada gesto, estou inteira
…companhia de sempre…

devagar transcorro meio ao caos
atenta a tudo, pulsa em mim o ritmo
de cada pulso
convido-me à dança
para todo canto: levo-me
estou em casa
estou em casa

Anúncios

cheia

10363698_1498295687115755_3421179881418184512_n

me olhei no lago da lua
e me vi refletida
cheia
estanquei o sangue que ali lavava
mês a mês
dispenso o que me fere
o que não passa da superfície
pois gota a gota
preencho minhas lacunas
e o que vem ao encontro, é transbordar
vivências em abundância
estou cheia até a boca.
~
de palavras férteis, fartas
tenho me nutrido
habito um novo mundo
onde no espelho me admiro e acordo sonhos profundos
no leito em que produzo
leite & mel 

fio de contas

WhatsApp Image 2017-04-02 at 21.28.50

foto: Anderson Mendonça

miro minhas mãos abertas tentando discernir

quais linhas me contam, e em quais me conto

tento me atentar à labuta diária de separar o joio do trigo

(ao mesmo tempo que rego ervas daninhas…

tão bonitinhas algumas…)

enfio as unhas entre as miçanguinhas do cordão

no pescoço

fazendo ritmo

/mania nos gestos/

conto as horas

cato o feijão

tento separar o que vejo, do que reflito

diante do espelho

do que me perscruto, inspeciono

olhares outros…

)preciso criar o entre para me perceber(

o que é minha língua entre tantas con-

fusões?

gasto saliva em versos no idioma que invento

{quem me decifra?}

§

busco o fio perdido

sinais

vestígios, referências

históricas

que falem sobre nós

não por nós

amarras, armadilhas

espero plantada mud’anças

movimentos dispersos

em direção ao sol

§

em exercícios matinais

me liberto minúcia a minúcia do que me cerca

{o que mora nos detalhes}

 

me aparto

 

… cravar limites sem me partir ao meio

resgatar semente sem machucar

muito

a pele.

em punga!

17965076_1273944286021029_650686279_n

Foto: Aline Penteado

—————————————————————————————————————————————–

em punga: mãos firmes nas rédeas, pés alados, mas bem encaixados no estribo. postura pronta. atenta! armada. – ainda que pareça desacelerada, o corpo todo acordado está: reverbera, galopante – língua devidamente afiada. cruza meu peito armadura leve. tem o peso de uma folha: instrumento de corte. meu semblante sereno espelha tal lâmina o olhar de quem me encara. meu corpo-templo protejo com todas as minhas forças. sutis & brutas. dentes se preciso eu mostro, nem sempre num sorriso. aberta brilho em ouro e chamas, afago & afetos providencio. mas vez em quando o tempo fecha, com o olhar lanço flechas. faço meu solo sagrado: cuidados por onde passo. cuidado onde pisa! não ando só.

—————————————————————————————————————————————–

TSUNAMI

para Aline Penteado

tem onda que bate forte
quase quebra a gente
no meio
~~
mas uma vez imersa
o corpo tem outro peso
transfigura-se o tempo
suspensa lentamente
transcendo
~~
ainda que se contorçam
músculos
em movimentos
bruscos
nos envolve
a rede líquida
uterina

fora, o mar
estronda como um rugido
e nesses quase-afogamentos
diários
sentimos o sal
que ainda habita
debaixo da língua

piscianas

12017632_863255180423277_3314515264431827371_o

                                                                                              para Daisy Serena

I

atravessamos o oceano à nado
e de fôlego em fôlego
recriamos ritmo de
respiro
~
aprendemos flutuar
e ofertar às vezes
o corpo à dança das marés
mas mãos que abrem águas
já (pres)sentem na ponta dos dedos
os grãos da beira

II
corpo-vivo deságua na orla
sob o sol prateia
rebrilham escamas de pretume
sedenta, investiga com minúcia
tudo que vai entre
dedos, unhas & búzios
tudo é sal/areia
pr’além
memórias gustativas/táteis

em terra firme
cada pisada é funda
ainda que parecemos levitar

III
os cabelos avolumam-se como nuvens
ao sabor do vento
/
vagas vozes de sereia
pescam o olvido
/
maresia, cerração
o mar vem em tantos sentidos…