três canções para iara

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I

teço a espera

com gosto de chuva na boca

terra molhada

na beira do igarapé

estendo os braços pra te receber

mãezinha d´água

eu ou tu?

te reconheço pelo canto

 

II

menina encantada

cria do amor-bem-feito

com poesia & ritmo

responde ao meu toque

me faz suscetível a mais sutil

brisa

faz do meu ventre vivo & florido reino

com o poder da tua existência

faz transbordar o amor

pelos poros

me atrai para o fundo

de mim

 

III

te canto, iara

pra me serenar

te canto, iara

pra te embalar

nas tranquilas

águas uterinas

onde cresce

fazendo do tempo

calma & canto

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das formas de dizer mar

às vezes pra dizer mar

a gente diz pedra

outras tantas

a gente diz

repouso

revolta

resgate

as ondas em rebuliço

revolvem as conchas

do fundo

e nos ofertam

nossa própria preciosidade

 

~ devorar o mar

como quem devora

a palavra peixe

a carne se desmancha

antes de se dilacerar

a palavra nos dentes ~

 

às vezes do mar

a gente só tem o gosto

 

. palavras’alinas .

 

trituramos os grãozinhos

arenosos dos dias

quase imperceptíveis

debaixo da língua

 

temperamos o tempo

com sal grosso

refinamos a calma

 

e como quem pesca

estrela marinha no céu da boca

fisgamos

a memória do movimento

do que ondula na saliva

 

~~

chuvosa

em dias feitos de chuva

me (en)torno aguaceiro

em torno de minha cama um alagado

pegadas de água por todos os cômodos

as horas escorrem

o dilúvio dos olhos

 

o silêncio respinga-se

com gotículas de quieto-espanto:

bebo o silêncio que há

debaixo das águas

 

que caem

caem

incessantemente

caio

 

em plena lama floresço

me torno esta quietude caudalosa

reverberando ondinhas

~~~

não sei mais se pluvial ou fluvial sou

o ciclo

é outro

 

[tempo fechado]

 

de molho

me dissolvo em insignificâncias

que apertam o peito

 

]tempo aberto[

 

úmida

navego por minhas reentrâncias

como nunca antes

flutuo em meu silêncio

Carina Castro

3 poemas inéditos na revista escamandro! ❤

escamandro

fotografia: luís bahú

Carina Castro (SP, 1988) é poeta, pesquisadora e artivista cultural. É autora do livro de poesia Caravana (Editora Patuá, 2013). Se dedica também aos textos para crianças e jovens, ganhou o Prémio Lusofonia de Portugal (2012) na categoria conto infantojuvenil; de lá pra cá muitos textos engavetados, alguns publicados em revistas digitais e antologias diversas, entre elas a mais recente É agora como nunca (Cia das Letras, 2017). Com Deborah Erê criou o selo de publicações independentes & intervenções gráfico-poéticas Selenitas. É idealizadora e atuante no coletivo de feminismo, arte-educação & infância Espaço Marciana. Atualmente escreve seu próximo livro e ministra oficinas de criação literária para mulheres e crianças. Seus textos e trampos podem ser encontrados internet afora no blog: Tudo é Coisa  e nas páginas: Caravana – poéticas de Carina Castro & Selenitas

***

afiadas

bem sabemos manusear facas
nem sempre na cozinha, meu…

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Foto: Luís Bahú

                                          tem sangue eterno a asa ritmada {Cecília Meireles}

tão suscetível ao vento
mal parece vir
do sufoco
de tão bem embrulhado
breu

todos os olhos
são pouco
pra tanta
miragem

re(pouso breve
em linhas, texturas & cores
no rastro

arrastar o peso
do próprio corpo
carregado de tantas
tantalizações
até alcançar
leveza

tão vívida
que mal parece
vir de
pequenas-mortes

[é tempo…]

visto minha estrutura
óssea
com poesia & pétalas
fazendo as vezes
de asas

in dolor

tem dores que latejam
juntinho do osso
 
e aprendemos a sorrir
mesmo assim
 
gengiva exposta
falta chorar
 
de rir
mostro os caninos
quando desestruturada
a gente fica sem cara
 
e aquela dor canina
insiste
a gente
insiste também
 
sem anestesia
sente fundo a dor até não sentir mais
 
espinha ereta
nadamos do âmago
ao mar aberto
 
até que possamos levitar
e carregar os próprios ossos