“Em travessia com Carina Castro”, prefácio de “Caravana” por Nina Rizzi

e esse desejo tão puro de uma delicadeza terrível/ um silêncio que se abra no poema. – “PREFÁCIO”, Nina Rizzi, in.: A duração do deserto

…em travessia com Nina Rizzi

Um dos grandes prazeres de publicar um livro foi ganhar este escrito, que é um presente muito especial, vindo dessa mulher que admiro imensamente como artista, mulher e amiga. Inclusive este encontro nosso foi muito bonito e importante para mim, pois me deparei com a poesia de Nina Rizzi quando estava num momento de desilusão poética, onde não via nada de novo dentro do novo, nada que me excitasse (a também escrever) e o contato com seu olhar como que fez surgir um oásis de inspiração e esperança em mim, e insisti na poesia, que passei a ver com outros olhos. Assim como ela viu em minha poesia algo que nem eu tinha visto, e contribuiu imensamente pra minha confiança nos passos como escritora, fez com que acreditasse na minha poesia, que sou eu, logo, acreditar em mim. Pra ela dedico meu amor e poesia.

E também descobri através de um dos projetos de arte de Nina, a Revista Ellenismos, outro/as poetas brilhantes e inspiradore/as.

Passamos por muita vida e processos profundos, nossas poesias se encontram, na estiagem e na umidade que há em nós, e atravessamo-nos uma a outra enquanto trilhamos o silêncio e as vozes de nosso próprio adentro.

Fantasia: o delírio e as cinzas

Favela com tintureiro -Heitor dos Prazeres

Favela com tintureiro -Heitor dos Prazeres

O OUTRO CARNAVAL

Carlos Drummond de Andrade

Fantasia,
que é fantasia, por favor?
Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?
Ou antes, e principalmente,
brinquedo sigiloso, tão íntimo,
tão do meu sangue e nervos e eu oculto em mim,
que ninguém percebe, e todos os dias
exibo na passarela sem espectadores?

 

 

EVOCAÇÃO

Carina Castro, Caravana

 

Manuel, as pombas

estão comendo os confetes!

Sai desta tumba!

Bota uma fantasia!

Olha as pessoas nas ruas, nos ônibus:

pierrôs, palhaços, papangus com sua terríveis

castanholas,

abelhas, tigresas, minnie’s e uma triste

colombina.

 

Faz calor, tua cidade está ainda

mais velha, mas há cores

há o metrô se queres chegar mais rápido,

mas ele vai pra lugar nenhum.

 

Os pregões não são mais os mesmos

de certo, mas podes tomar uma cervejinha gelada,

lhe fará bem!, a oferta é tanta,

e tem salgados a preços módicos.

 

Os metais do frevo já estão fervendo,

mas não se empolgue tanto,

não precisa entrar na banda,

cuidado com os pulmões!

 

A cidade continua velha

e sempre será antiguidade,

não se assustará tanto.

Traga uma marchinha

improvisada no bolso.

 

Sentimos falta da tua

companhia impagável.

Debaixo das cascas das paredes

está o tempo

e a tinta da restauração

não apagou tua memória,

no letreiro luminoso

de algum ônibus ainda

verá a Rua do Sol,

e em meio a festa verá

tua infância, ainda há muitos

paralelepípedos e vielas.

 

Há meninos de rua lá,

mas seremos todos meninos de rua.

Vem, Manuel, que a 4ª feira se aproxima,

e ninguém ainda viu nas ruas a fantasia de poeta.

 

 

 

FANTASIA NA PRAIA

Carina Castro, Caravana

 

a beira praia meio-dia posto

a fantasia rota,

odores sudoríparos

 

a cidade em festa despeja sobre si o que da festa sobra

 

os lixos maleavam com as ondas

chinelos, cabelos, destinos, plásticos em desuso

e os barcos

 

trazia ao corpo a guardachuvista

azul e vermelho ~o céu bem limpo, o sol queimando~

os cabelos desgrenham-se com o sopro dos monstros marítimos

 

os olhos afogados

 

apregou-se à fantasia, incorporou a roupa da puída personagem

nem mais usada em carnavais

 

areia, vestígios de si

 

as ondas, os dejetos

 

 

 

EPÍGRAFE
Manuel Bandeira, Carnaval
 
Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e per-
guntou tristemente – se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do
frangalho de fantasia do que do seu ar de extre-
ma penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sor-
riso se lhe transmudou em ricto amargo. E os
olhos ficaram baços, como duas poças de água
suja…Então, para cortar o soluço que adivi-
nhei subindo de sua garganta, puxei-a para ao pé
de mim, e com doçura:
– Tu és a minha esperança de felicidade e
cada dia que passa eu te quero mais, com perdida

volúpia, com desesperação e angústia…

ADSTRINGE A GOELA

BD-Danae-Klimt

Um brinde acre!

Quando quase podres as uvas nos pés conseguiu-se salvar a safra

os deuses riem lambuzados de vinho
e um rio de lágrimas nos transporta
e palavras escorrem das bocas
pacíficas
bélicas
ávidas

Reluziu numa BOCARRA opulenta
dentes de ouro

Quantas moedicas doiradas engolira o peste?
Quero dentes d’oiro bruto! Pra sorrir feito um sol,
pra beber a vida sem corroer-me
E só me bastam 2 vinténs! Evoé, Oxalá!

Este poema integrou “VINAGRE: UMA ANTOLOGIA DE POETAS NEOBARROCOS”, é possível baixá-la aqui ou ler online aqui

– Imagem: “Danae” Gustav Klimt

Uma didática da invenção

Uma didática da invenção

Manoel de Barros

2.
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.

comb garden - Sabine Timm

comb garden – Sabine Timm

 

book lover's beauty treatments - Sabine Timm

book lover’s beauty treatments – Sabine Timm

 

secret place - Sabine Timm

secret place – Sabine Timm

 

 

 

Na sombra das coisas

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Gosto de ficar na sombra das coisas
no segredo delas, gosto
de entranhar a criação
de vagar como as ideias
como a arte que se estranha
e, incerto, incauto
renasço a cada dia.

Adonis, pseudônimo de Ali Ahamed Said Esber, poeta sírio