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Foto: Luís Bahú

                                          tem sangue eterno a asa ritmada {Cecília Meireles}

tão suscetível ao vento
mal parece vir
do sufoco
de tão bem embrulhado
breu

todos os olhos
são pouco
pra tanta
miragem

re(pouso breve
em linhas, texturas & cores
no rastro

arrastar o peso
do próprio corpo
carregado de tantas
tantalizações
até alcançar
leveza

tão vívida
que mal parece
vir de
pequenas-mortes

[é tempo…]

visto minha estrutura
óssea
com poesia & pétalas
fazendo as vezes
de asas

in dolor

tem dores que latejam
juntinho do osso
 
e aprendemos a sorrir
mesmo assim
 
gengiva exposta
falta chorar
 
de rir
mostro os caninos
quando desestruturada
a gente fica sem cara
 
e aquela dor canina
insiste
a gente
insiste também
 
sem anestesia
sente fundo a dor até não sentir mais
 
espinha ereta
nadamos do âmago
ao mar aberto
 
até que possamos levitar
e carregar os próprios ossos

desdobramentos

me desdobro
troco as dobradiças
das portas emperradas
muito óleo para a secura dos dias
/ar-ti-cu-la-ções/
jogo de cintura
hay que fortalecer as juntas meio desconjuntadas
)abrir passagem(
preciso ainda
derrubar paredes
cortar o cabelo
as unhas, os vícios
as más companhias
o passado
com força sobre-humana
me reergo
quando estou derrubada
consolido-me
|
até a próxima queda
|
me levanto
tododia
até o próximo sonho
ao sabor do insondável
firme na constância das vagas
corpo entregue/imprevisível
a procura de respiro
sopros
|
queimando as retinas
nos ecrãs da vida
livros inter-
minados
por ler
por escrever
pernas por fazer
me recubro apenas
de mim mesma
são tantas as camadas
descamação da epiderme
troco de pele
|
me desdobro
em quantas?
quanto tempo ainda tenho?
depois de
/amanhã/
antes de
/ontem/
não cabem nos dedos de duas mãos
tanta palavra socada
pra dentro
no decorrer dos dias
decorro
escoo-me
em banho maria
deixo os nervos des-
cansando
enquanto entorno o caldo
noturnamente
|
des-
culpo-me
des-
culpo-me
de quantas em quantas palavras?
de quanto em quanto tempo
des-
cobro-me?
com empenho
tento
alcançar leveza
sem levar chumbo
dividir as cargas
dis-
tensionar o corpo
des-
dobrar-me
em posição fetal
|
do útero tiro forças
para mais um passo
mais um sonho
sus-
piro…
a l o n g o – m e
mais um es-
forço-
me
para fechar
as pálpebras
descansar em paz
|
adormecer
o que está sempre acordado
corpo adentro
no inconsciente
o mar
{sempre o mar…}
impulsos felinos
portas e mais
portas
pessoas e mais
pessoas
paredes intermitentes
tanta estrada de terra:
há caminhos
|
des-
dobro a língua
em sílabas cismadas
escritas tão reais
quanto oníricas
tão densas quanto
sutis
des-
enrolo-me
em fios
onde tranço
minhas partes
en-
fim membradas.

mantra matinal

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abro a manhã com as mãos
não à força
mas com força sutil
traço no papel o esboço do dia

entoo pontos cantados
danço por entre nuvens aromáticas
leveza no ar
vibro
pequenos ritos para
desembrulhar o presente
abrir caminhos

corto as frutas com doce lâmina
inauguro a janela com nova cortina
para tudo que me toca as retinas, um olhar
em cada gesto, estou inteira
…companhia de sempre…

devagar transcorro meio ao caos
atenta a tudo, pulsa em mim o ritmo
de cada pulso
convido-me à dança
para todo canto: levo-me
estou em casa
estou em casa

cheia

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me olhei no lago da lua
e me vi refletida
cheia
estanquei o sangue que ali lavava
mês a mês
dispenso o que me fere
o que não passa da superfície
pois gota a gota
preencho minhas lacunas
e o que vem ao encontro, é transbordar
vivências em abundância
estou cheia até a boca.
~
de palavras férteis, fartas
tenho me nutrido
habito um novo mundo
onde no espelho me admiro e acordo sonhos profundos
no leito em que produzo
leite & mel 

fio de contas

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foto: Anderson Mendonça

miro minhas mãos abertas tentando discernir

quais linhas me contam, e em quais me conto

tento me atentar à labuta diária de separar o joio do trigo

(ao mesmo tempo que rego ervas daninhas…

tão bonitinhas algumas…)

enfio as unhas entre as miçanguinhas do cordão

no pescoço

fazendo ritmo

/mania nos gestos/

conto as horas

cato o feijão

tento separar o que vejo, do que reflito

diante do espelho

do que me perscruto, inspeciono

olhares outros…

)preciso criar o entre para me perceber(

o que é minha língua entre tantas con-

fusões?

gasto saliva em versos no idioma que invento

{quem me decifra?}

§

busco o fio perdido

sinais

vestígios, referências

históricas

que falem sobre nós

não por nós

amarras, armadilhas

espero plantada mud’anças

movimentos dispersos

em direção ao sol

§

em exercícios matinais

me liberto minúcia a minúcia do que me cerca

{o que mora nos detalhes}

 

me aparto

 

… cravar limites sem me partir ao meio

resgatar semente sem machucar

muito

a pele.