fio de contas

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foto: Anderson Mendonça

miro minhas mãos abertas tentando discernir

quais linhas me contam, e em quais me conto

tento me atentar à labuta diária de separar o joio do trigo

(ao mesmo tempo que rego ervas daninhas…

tão bonitinhas algumas…)

enfio as unhas entre as miçanguinhas do cordão

no pescoço

fazendo ritmo

/mania nos gestos/

conto as horas

cato o feijão

tento separar o que vejo, do que reflito

diante do espelho

do que me perscruto, inspeciono

olhares outros…

)preciso criar o entre para me perceber(

o que é minha língua entre tantas con-

fusões?

gasto saliva em versos no idioma que invento

{quem me decifra?}

§

busco o fio perdido

sinais

vestígios, referências

históricas

que falem sobre nós

não por nós

amarras, armadilhas

espero plantada mud’anças

movimentos dispersos

em direção ao sol

§

em exercícios matinais

me liberto minúcia a minúcia do que me cerca

{o que mora nos detalhes}

 

me aparto

 

… cravar limites sem me partir ao meio

resgatar semente sem machucar

muito

a pele.

em punga!

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Foto: Aline Penteado

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em punga: mãos firmes nas rédeas, pés alados, mas bem encaixados no estribo. postura pronta. atenta! armada. – ainda que pareça desacelerada, o corpo todo acordado está: reverbera, galopante – língua devidamente afiada. cruza meu peito armadura leve. tem o peso de uma folha: instrumento de corte. meu semblante sereno espelha tal lâmina o olhar de quem me encara. meu corpo-templo protejo com todas as minhas forças. sutis & brutas. dentes se preciso eu mostro, nem sempre num sorriso. aberta brilho em ouro e chamas, afago & afetos providencio. mas vez em quando o tempo fecha, com o olhar lanço flechas. faço meu solo sagrado: cuidados por onde passo. cuidado onde pisa! não ando só.

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piscianas

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                                                                                              para Daisy Serena

I

atravessamos o oceano à nado
e de fôlego em fôlego
recriamos ritmo de
respiro
~
aprendemos flutuar
e ofertar às vezes
o corpo à dança das marés
mas mãos que abrem águas
já (pres)sentem na ponta dos dedos
os grãos da beira

II
corpo-vivo deságua na orla
sob o sol prateia
rebrilham escamas de pretume
sedenta, investiga com minúcia
tudo que vai entre
dedos, unhas & búzios
tudo é sal/areia
pr’além
memórias gustativas/táteis

em terra firme
cada pisada é funda
ainda que parecemos levitar

III
os cabelos avolumam-se como nuvens
ao sabor do vento
/
vagas vozes de sereia
pescam o olvido
/
maresia, cerração
o mar vem em tantos sentidos…

 

 

poesia no corpo: criação literária para mulheres

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Foto: Daisy Serena

com orientação de Carina Castro

Oficina de criação literária voltada para mulheres. A proposta é trabalhar a escrita literária, tendo em vista as subjetividades ­narrativas femininas, com o objetivo de estabelecer um espaço de livre criação que permita desde a elaboração de poemas e outras formas de expressão literária, visando transformá-­las em voz.
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A voz feminina faz-se o centro da oficina de forma literal e metafórica. Caminharemos num sentido de empoderar a (própria) voz através da escrita literária. Pretendemos abordar bloqueios de escrita, trazendo à tona a consciência de que essa condição, presente em tantas mulheres, representa um silenciamento histórico das narrativas femininas nos mais diversos campos.
Através de leituras, trocas-narrativas e vivências poéticas, criaremos textos literários num processo de empoderamento e incorporação do próprio texto e da expressão da subjetividade na escrita. E a partir dessa elaboração, redimensionar o espaço da mulher na escrita apropriando-se do campo literário.
Assim, iremos desde um primeiro movimento de pôr o texto no papel até apropriar-se do mesmo, trazendo-o para o corpo de diversas formas, ampliando a percepção de atuação de um corpo poético-político. Nesse percurso leremos escritoras que trazem em suas escritas marcas de gênero, identidades, lugares sociais e perspectivas de mundo diversas, revelando em sua escrita, construção enquanto sujeitas. Este será o ponto de partida, tomar conhecimento das diversidades literárias. Após, abriremos as leituras ao diálogo, percebendo o impacto do individual no coletivo, para assim desaguar num terceiro momento da oficina, onde trabalharemos exercícios literários de maneira prática, intercalando com as leituras e diálogos . Construindo assim, um processo mais amplo e sutil de contato e familiarização com a escrita.

***Programa das aulas abaixo
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Aula aberta dia 12/10.
Início do curso: 19/10.
Quartas-feiras, das 19 às 21 horas
Encontros = 20 horas-aula.
Investimento: R$ 200 pelos dez encontros ou R$ 25 por encontro avulso

Infos e inscrições:
Centro Cultural Butantã
Av. Corifeu de Azevedo Marques, 1880
11 2985 4846
centroculturalbutanta@gmail.com

PROGRAMA:

– Aula aberta de apresentação do curso: (re)conhecendo-nos

Aula 1 “poesia não é um luxo”: narrativas em primeira pessoa e corpo político

Aula 2 ­ escrevo, logo existo: subjetividade e escrita

Aula 3 ­ escritas íntimas: diário & correspondência

Aula 4 ­ “transformação do silêncio em linguagem e ação”: leituras e discussão

Aula 5 ­ deixar o texto ganhar mundo: diálogos e trocas

aula 6 – em busca da voz própria: estilo, poéticas

aula 7 – o “uso do erótico como poder”: leituras e práticas

aula 8 – voz: som, ritmo e sentido: amplificando a voz

aula 9 – poesia se faz com o corpo inteiro: diversas linguagens poéticas

aula 10 – incorporação: para além do papel
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crescente fértil

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foto: Carina Castro

enquanto estendo as roupas
no varal
torço
pra que não chova
enquanto eu estiver fora
seria toda uma tarde enxuta
encharcada
tem também aquela goteira
insistente
pra amparar
pode vir de vento
sem aviso
dependendo da força
entra pelas frestas
da janela
inundando dentro
enquanto se acaba
a civilização
lembro que tenho que me virar em comida
pra suprir fomes alheias
confirmo no calendário o dia que o gás acabou/
localizo a lua crescente
– tempo certo –
pra cortar
os cabelos
pra que cresçam
subo a ladeira quase-sem-fôlego
me sinto sedentária
lembro que tenho
um corpo
mas não lembro
quando assentei poeira no chão
finquei raízes
ergui e pari o mundo
[e o que fez de mim a civilização?]
concebia-me sem pecado
e me embalava com muita graça
quando não temia
a época das cheias
que batiam no peito
não dava pé e não sabia nadar
que vinham
lavando e levando tudo
trazendo feras
peixes à beira da loucura
num transbordar infinito
prateando tudo até que tudo apodrecesse
tornando a lama, lume
crescente fértil
leito de nanã
dou de beber a tantas sedes
que a estiagem sempre é certa
corro pra tirar as roupas do varal
mas no fundo quero
que meu corpo encharque

enleio, desfio

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DESAPARECIDA
se lia nos postes
e voltava mil vezes
o caminho
mil e uma vezes
repensava
até re-
lembrar
quem era
percorri a memória das ruas per-
correndo memórias
do próprio corpo
lia nas linhas
de cada mão
de força&massa
edificação
vagava
pelos próprios labirintos
e deixava
que o tempo
voltasse-e-passasse
como o vento
perpassando pele&pêlo
em cada poro
origem, diáspora, refúgios
cicatrizes, suturas-históricas, desvios
em cada estria
do tecido da pele
narrativas, línguas, vozes
que se pronunciavam enquanto
depuravam, debulhavam, desencardiam
– – – – mãos puídas tramam – – – –
<<< pés-quilombos >>>
{encontro-me outra}
alcanço a fibra, a fímbria. res-
suscito o próprio ânimo
restituo em mim o enigma
renasço ancestral

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poema de carina castro, foto de luís bahú