finitos fios

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nasceram-me os primeiros fios brancos
traçam eles o tempo em minha cabeça
meu tempo é sem tempo e vagaroso
na verdade já apareceram outra vez
mas arranquei
todo mundo diz que quando a gente arranca
nascem três no lugar
imagino minha mão imensa
adentrando a terra
e arrancando as ervas daninhas
que sempre são tão graciosas
são dois fiozinhos inocentes
graciosos
que me fazem pensar
numa linha que me costura por dentro
e sobra a ponta do fio pra fora
me fazem pensar no branco que me dá
imagino minha cabeça rodeada de névoa
como se eu fosse a serra do mar
meus cabelos brancos de orvalho, cristais
me fazem pensar em todas as vezes
que passei em branco
que deixei a folha em branco
que amanheci
penso num campo de trigo
que quiçá nunca verei
e como um dente de leão
me espalho com sopro
e penso numa fenda
contrastada na escuridão onde não habitam olhos
penso nas mãos que me trançaram os cabelos
e cuja a cabeça era a flor do algodão
penso em cãs e como gosto de usar essa palavra
e da palavra da poeta de alvas cãs
vejo linhas brancas onde escrevo as entrelinhas
penso em quantos virão, em quanto tempo
quanto tempo demorou pra aparecerem
quanto tempo demorei pra aparecer
pra sumir
a visão que se descolore ao olhar pra trás
e não enxergar mais quem vivia em sua cabeça
são dois fiozinhos
cada um nascido em um aniversário meu
nascem enquanto renasço
e me fazem pensar que não sou a mesma
nem os de sempre são os mesmos
nem os pensamentos são os mesmos
de quando não habitava minha cabeça
dois singelos e simbólicos fios brancos

“Em travessia com Carina Castro”, prefácio de “Caravana” por Nina Rizzi

e esse desejo tão puro de uma delicadeza terrível/ um silêncio que se abra no poema. – “PREFÁCIO”, Nina Rizzi, in.: A duração do deserto

…em travessia com Nina Rizzi

Um dos grandes prazeres de publicar um livro foi ganhar este escrito, que é um presente muito especial, vindo dessa mulher que admiro imensamente como artista, mulher e amiga. Inclusive este encontro nosso foi muito bonito e importante para mim, pois me deparei com a poesia de Nina Rizzi quando estava num momento de desilusão poética, onde não via nada de novo dentro do novo, nada que me excitasse (a também escrever) e o contato com seu olhar como que fez surgir um oásis de inspiração e esperança em mim, e insisti na poesia, que passei a ver com outros olhos. Assim como ela viu em minha poesia algo que nem eu tinha visto, e contribuiu imensamente pra minha confiança nos passos como escritora, fez com que acreditasse na minha poesia, que sou eu, logo, acreditar em mim. Pra ela dedico meu amor e poesia.

E também descobri através de um dos projetos de arte de Nina, a Revista Ellenismos, outro/as poetas brilhantes e inspiradore/as.

Passamos por muita vida e processos profundos, nossas poesias se encontram, na estiagem e na umidade que há em nós, e atravessamo-nos uma a outra enquanto trilhamos o silêncio e as vozes de nosso próprio adentro.

Coisas que não há que há

~ 2013 se esvai na ampulheta e quase nos leva junto, em muitos momentos pensei pisar em areia movediça, mas era apenas o movimento da mudança, tão necessária. Este ano foi muito intenso, e muito marcante pra mim, entre outros motivos pelo advento do Caravana, minha cria, que está aos poucos aprendendo a andar sozinha e espero que do ano que vem em adiante ganhe o mundo, pois antes eu tinha vergonha de mostrar meus escritos, mas é tão belo ver o encontro das pessoas com a poesia e o que isso causa nelas!
Outros projetos já estão no forno, e mais outros virão à tona e espero que bons ventos soprem para todos, seja um ano suave pra cabeça, porém que continuemos tocando em direção a um lugar melhor para se existir, seja ao nosso redor ou dentro de nós, e o estalar da mudança continue movimentando O Carro que é este mundo, e o Arcano que regerá o ano.

Sou tão agradecida aos integrantes de minha caravana, os amigos queridos que comigo atravessam os desertos. Então bom recomeço de ciclo e de si, boa viagem e aproveite as coisas boas do caminho, pois os cães ladram, mas a caravana não para!

Beijos!

Que inventemos muitas paisagens para ver e que nos reinventemos em 2mil&qüatorze!

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Manuel António Pina

Caravana, o livro: pronta pra partir

Depois de um processo que envolveu um percurso em mim, recorrendo às minhas memórias, impressões, vivências e fantasias, concluí Caravana, meu primeiro livro de poesia, e resultado do meu encontro com a poesia já há algum tempo, pois os poemas que vão nele vêm desde caminhos percorridos quando nem idealizava o livro, mas que já indicavam estar vindo de uma mesma percepção poética; e os poemas que compus pensando no lugar estético para onde convergiu o livro, porque sim a poesia conduz (e é ela quem me conduz) e veio me guiando por esta matéria do vagar.

E este locus poético se faz não só de paisagens, mas da travessia em si, e não poderia estar dissociado das minhas experiências, desde a infância fui habituada às viagens, também por vir de uma família que parte se espalhou pelos estados e cidades (e outra que fixou-se na origem) como acontece com grande parte dos nordestinos que migram pelas diversas partes deste território continental, enfim, minha experiência enquanto andarilha, mochileira, amante das viagens, do desbravar, mergulhar, mover-me, ver, e um cotidiano quase nômade, dividida entre lares, pousos e transportes.

E é assim que eu vejo o Caravana, como um transporte, aliás, o que me levou de encontro ao título (já que este se descobre e se encontra no próprio livro), primeiro foi a realização de um poema, de mesmo título, que me trouxe em outra perspectiva a atmosfera do repouso da caravana, que é o momento onde a poesia, a música, o canto, as trocas humanas acontecem. E também me levou ao título observar que cada poema é como se fosse um transporte, carregados de símbolos, pesos, cores e texturas diferentes, porém unidos, partes de um mesmo fim, fio, pra mim ficou claro então que o livro representa nada menos que uma caravana! Além do fato de que cruzar assim, como um só corpo, o deserto, o branco das margens, o vazio e a extensão a perder de vista, é mais seguro.

O livro abre também quatro portas, portais, ou corredores de mirada e sensação, que seriam algo como capítulos ou seções (e por que não sessões?), que eu intitulei “De onde vim”, “Cidades sem nome”, “Orientar” e “Fantasia”, que resumindo muito, configuram estados dentro da viagem, o primeiro seria algo ligado às ancestralidades, à minha origem íntima, como poeta, as inspirações e o histórico do itinerário enfim, uma apresentação; o segundo seria algo como relatos dos lugares enquanto espaços citadinos que eu vi e inventei; o terceiro traz algo de espaços simbólicos rumo ao Oriente; e o último envolve diversas metáforas, mas seria um momento de delírio, entre a festa e as cinzas, onde a roupa que nos disfarça é a que nos desnuda.

E o resultado do livro pronto, que até mim aporta já pronto para zarpar novamente, em busca de novos olhares, desta vez os que lerão, e ser a viagem, as paisagens e percursos dos leitores, me agradou tanto-tanto, principalmente pela cara de caravana que ficou, com a participação de amigos queridos na complementação do livro, e os que me acompanharam nas minhas leituras de mim mesma, e souberam opinar pra eu encontrar o tom, e também, com esses todos e outros, espero, este livro vai, não uma multidão dispersa, mas um grupo coeso ao destino de caminhar, e do mesmo modo que não quero aqui dar pistas ou um destino à leitura, são apenas impressões minhas sobre o meu fingir, e este tempo que passei imersa nestes lugares-meus, convido então a comigo partirem nesta viagem sem coordenadas, e se orientar pelo que surgir perante a vista, ainda que miragem.

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Infante Ingente

do filme 'Alice' de Jan Svankmajer, 1988

do filme ‘Alice’ de Jan Svankmajer, 1988

Uma coisa muito boa: passei a assinar uma coluna sobre Arte Infantil na Revista Ellenismos! Que além de ser um espaço independente onde se constrói diálogos muito ricos entre as artes com pessoas muito talentosas de diversas partes deste país, fico muito contente com o espaço conquistado para poder falar sobre o universo infantil numa revista de artes de maneira horizontal.

Adoto o termo “Arte Infantil” por tratar de literatura, artes visuais, música, cinema e etc voltados para o público infantil e muitas vezes produzidos por este público, alargando-se assim o sentido e sentimento de infantil, pois a parcela infantil que há em nós também se deleita com estas produções, e que por ser da mesma forma arte e ter variadas propostas estéticas (e políticas) são do interesse e tem efeito para os não-crianças e para sociedade como um todo.

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Leia meu primeiro artigo clicando aqui

E para ler a revista inteirinha, que nesta edição traz o tema “des-construindo o gênero” baixe aqui

Uma didática da invenção

Uma didática da invenção

Manoel de Barros

2.
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.

comb garden - Sabine Timm

comb garden – Sabine Timm

 

book lover's beauty treatments - Sabine Timm

book lover’s beauty treatments – Sabine Timm

 

secret place - Sabine Timm

secret place – Sabine Timm