finitos fios

Foto2060

nasceram-me os primeiros fios brancos
traçam eles o tempo em minha cabeça
meu tempo é sem tempo e vagaroso
na verdade já apareceram outra vez
mas arranquei
todo mundo diz que quando a gente arranca
nascem três no lugar
imagino minha mão imensa
adentrando a terra
e arrancando as ervas daninhas
que sempre são tão graciosas
são dois fiozinhos inocentes
graciosos
que me fazem pensar
numa linha que me costura por dentro
e sobra a ponta do fio pra fora
me fazem pensar no branco que me dá
imagino minha cabeça rodeada de névoa
como se eu fosse a serra do mar
meus cabelos brancos de orvalho, cristais
me fazem pensar em todas as vezes
que passei em branco
que deixei a folha em branco
que amanheci
penso num campo de trigo
que quiçá nunca verei
e como um dente de leão
me espalho com sopro
e penso numa fenda
contrastada na escuridão onde não habitam olhos
penso nas mãos que me trançaram os cabelos
e cuja a cabeça era a flor do algodão
penso em cãs e como gosto de usar essa palavra
e da palavra da poeta de alvas cãs
vejo linhas brancas onde escrevo as entrelinhas
penso em quantos virão, em quanto tempo
quanto tempo demorou pra aparecerem
quanto tempo demorei pra aparecer
pra sumir
a visão que se descolore ao olhar pra trás
e não enxergar mais quem vivia em sua cabeça
são dois fiozinhos
cada um nascido em um aniversário meu
nascem enquanto renasço
e me fazem pensar que não sou a mesma
nem os de sempre são os mesmos
nem os pensamentos são os mesmos
de quando não habitava minha cabeça
dois singelos e simbólicos fios brancos

Besouro – Tesouro

“A natureza ali me dava uma espécie de embriaguez. Atraíam-me os pássaros, os escaravelhos, os ovos de perdiz. Era milagroso encontrá-los nas quebradas, brônzeos, escuros e reluzentes, com uma cor parecida com a do cano de uma espingarda. Assombrava-me a perfeição dos insetos. Recolhia as madres de la culebra. Com esse nome extravagante se designava o maior coleóptero, negro, luzidio e forte, o titã dos insetos do Chile. Dava calafrios vê-lo de repente nos troncos dos arbustos, das macieiras silvestres e das estevas, mas eu sabia que era tão forte que se podia ficar com os pés sobre ele que não se romperia. Com sua grande dureza defensiva não precisava de veneno.

Estas minhas explorações enchiam de curiosidade os trabalhadores. Logo começaram a se interessar pelas minhas descobertas. Assim que meu pai se descuidava, largavam-se pela selva virgem e com mais destreza, mais inteligência e mais força que eu, encontravam para mim tesouros incríveis. Havia um que se chamava Monge. Segundo meu pai, um perigoso cuchillero. (1) Tinha duas grandes linhas na cara morena. Uma era a cicatriz vertical de uma facada e a outra seu sorriso branco, horizontal, cheio de simpatia e picardia. Monge me trazia copihues brancos, aranhas peludas, filhotes de pombas, e uma vez descobriu para mim a coisa mais deslumbrante: o coleóptero do cohiue (2) e da luma. (3) Não sei se vocês já o viram alguma vez. Eu só o vi naquela ocasião. Era um relâmpago vestido de arco-íris. O vermelho e o violeta e o verde e o amarelo deslumbravam em sua carapaça. Como um relâmpago me fugiu das mãos e voltou à selva. Monge já não estava perto para recapturá-lo. Nunca me refiz daquela aparição deslumbrante.”

1 – Cuchitlero: que é hábil, em brigas, no manejo da faca (cuchillo) como arma. (N. da T.)

2 – Cohiue: (Bot.) variedade de esteva pequena, própria dos Andes Patagônicos. (N. da T.)

3 – Luma: (Bot.) árvore chilena, da família das mirtáceas, que cresce até 20 m de altura, de madeira dura, pesada, resistente; madeira desta árvore. (N. da T.)

Pablo Neruda, “Infância e poesia”, in Confesso que Vivi

Recolher

O mais estranho naquele jardim selvagem era que, intencionalmente ou por descuido, havia somente amapolas. As outras plantas tinham-se retirado do lugar sombrio. Algumas eram grandes e brancas como pombas; outras, escarlates como gotas de sangue, ou cor de amora e negras como viúvas esquecidas. Eu nunca tinha visto tanta quantidade de amapolas e nunca mais voltei a ver. Ainda que as olhasse com muito respeito, com certo supersticioso temor que só elas infundem, entre todas as flores, não deixava de cortar de vez em quando alguma, cujo talo quebrado deixava um leite áspero em minhas mãos e uma lufada de perfume inumano. Acariciava e guardava em um livro as pétalas suntuosas de seda. Para mim eram asas de grandes mariposas que não sabiam voar.

Pablo Neruda,

em ‘Confesso que vivi’