braba

de cócoras investigo o chão

tentando encontrar aquilo que me compõem

onde se derrama e abraça frestas

a parte mais bruta de mim

 

raiz

 

o caminho tem sido tão florido quanto tortuoso

minha travessia tem sido parir

o que o corpo já não comporta

e depois acolher e nutrir

 

chorei com aquela mulher

que encontrei no deserto

em estado de calamidade e força visceral

e juntas cantamos cantigas ancestrais

pra colar nossos ossos

reconstituir a carne

 

ainda ouço o uivo

em noites em que a fome de correr um mundo tão selvagem quanto meu

não dorme

 

talvez seja preciso mamar nas tetas da loba

para fundar uma nova cidade

em mim

 

farol

esperamos os feixes de luz

do farol abrir uma fresta

no mar noturno

cada uma a sua vez

de dentro da concha

(a)guardamos

o fisgar do sol

da manhã recém-nascida

nos atemos atentamente

ao respirar que move

o corpo

emitimos apenas

o canto que embala

dos mais brutos e instintivos

à delicadeza do sal

tocando a ponta dos dedos

ao secar as lágrimas mais

pequeninas

de dentro da concha

cuidamos da preciosidade de cada

banalidade

antes que o sonho se esvaeça

o choro acorde

e o leite empedre