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o mar estira-se depois

que as ondas se encorpam  

o corpo estria-se quando

a pele se espraia

 

a espera escapa

das mãos

feito água

atravessa o tempo

suspensa entre

o útero e as mãos

que recebem

 

“atrevete a flotar…”

 

contrações intensificam-se

em ondas

sempre passamos

por dias de mar bravo

bravíssimo

 

pra não me afogar no ar

respiro

 

descontraio enquanto

 

TEMPORÃ

o tempo cresce dentro de mim

e eu me torno deusa, tempo, criadora

tateio até tocar o silêncio

que se refugia bem-dentro

quase inalcançável

 

em matéria de maturidade

sempre fui a fruta

, como diz a minha mãe,

que fica escolhida

embora apreciada como desfrutável, palpável

-estranho fruto –

porém a mente sempre foi temporã

 

mais chaos que chronos

 

corpo-templo, corpo-tempo

tento me realocar no tempo

no meu tempo

no tempo do meu fruto

suprir, suprir

ventre & veias as mais fininhas

curar com aquilo que exala e tem raiz

tal ensinam as mais velhas

pretas velhas, caboclas

sou minha própria benção

vibro, há muita vida em mim

 

sou uma mulher de meu tempo

sobrevivo a golpes

ouso vislumbrar um futuro

denuncio as misérias

de meus contemporâneos

e também me dou ao luxo de

escrever poesia

de amar

me amar

& procriar

(por desejo, não obrigação)

um novo tempo.

 

as palavras que me compõem

 

fuga nº2

retomo nas mãos os passos

que deixei pela noite

as palavras que deixei

pelo caminho

 

encruzilhadas

cruzam

meu corpo

 

reabro os caminhos

manipulo metáforas

poema terminado é gozo

quer correr pro mundo

quer antes percorrer

as vielas de dentro

esgueirar-se

corpoadentro

 

dou vida

às palavras-vento

insubmissas, irrepreensíveis

juntas nos jogamos

fuga nº1

a palavra é esse cavalo

selvagem

que tento montar

 

incorporar

o que me foge as mãos

o que toma minha cabeça

me eleva

 

me leva ao chão

de onde recomeço

 

nesse arfante

ato eróticoespiritual

três canções para iara

IMG_2962

I

teço a espera

com gosto de chuva na boca

terra molhada

na beira do igarapé

estendo os braços pra te receber

mãezinha d´água

eu ou tu?

te reconheço pelo canto

 

II

menina encantada

cria do amor-bem-feito

com poesia & ritmo

responde ao meu toque

me faz suscetível a mais sutil

brisa

faz do meu ventre vivo & florido reino

com o poder da tua existência

faz transbordar o amor

pelos poros

me atrai para o fundo

de mim

 

III

te canto, iara

pra me serenar

te canto, iara

pra te embalar

nas tranquilas

águas uterinas

onde cresce

fazendo do tempo

calma & canto