in dolor

tem dores que latejam
juntinho do osso
 
e aprendemos a sorrir
mesmo assim
 
gengiva exposta
falta chorar
 
de rir
mostro os caninos
quando desestruturada
a gente fica sem cara
 
e aquela dor canina
insiste
a gente
insiste também
 
sem anestesia
sente fundo a dor até não sentir mais
 
espinha ereta
nadamos do âmago
ao mar aberto
 
até que possamos levitar
e carregar os próprios ossos

desdobramentos

me desdobro
troco as dobradiças
das portas emperradas
muito óleo para a secura dos dias
/ar-ti-cu-la-ções/
jogo de cintura
hay que fortalecer as juntas meio desconjuntadas
)abrir passagem(
preciso ainda
derrubar paredes
cortar o cabelo
as unhas, os vícios
as más companhias
o passado
com força sobre-humana
me reergo
quando estou derrubada
consolido-me
|
até a próxima queda
|
me levanto
tododia
até o próximo sonho
ao sabor do insondável
firme na constância das vagas
corpo entregue/imprevisível
a procura de respiro
sopros
|
queimando as retinas
nos ecrãs da vida
livros inter-
minados
por ler
por escrever
pernas por fazer
me recubro apenas
de mim mesma
são tantas as camadas
descamação da epiderme
troco de pele
|
me desdobro
em quantas?
quanto tempo ainda tenho?
depois de
/amanhã/
antes de
/ontem/
não cabem nos dedos de duas mãos
tanta palavra socada
pra dentro
no decorrer dos dias
decorro
escoo-me
em banho maria
deixo os nervos des-
cansando
enquanto entorno o caldo
noturnamente
|
des-
culpo-me
des-
culpo-me
de quantas em quantas palavras?
de quanto em quanto tempo
des-
cobro-me?
com empenho
tento
alcançar leveza
sem levar chumbo
dividir as cargas
dis-
tensionar o corpo
des-
dobrar-me
em posição fetal
|
do útero tiro forças
para mais um passo
mais um sonho
sus-
piro…
a l o n g o – m e
mais um es-
forço-
me
para fechar
as pálpebras
descansar em paz
|
adormecer
o que está sempre acordado
corpo adentro
no inconsciente
o mar
{sempre o mar…}
impulsos felinos
portas e mais
portas
pessoas e mais
pessoas
paredes intermitentes
tanta estrada de terra:
há caminhos
|
des-
dobro a língua
em sílabas cismadas
escritas tão reais
quanto oníricas
tão densas quanto
sutis
des-
enrolo-me
em fios
onde tranço
minhas partes
en-
fim membradas.