TSUNAMI

para Aline Penteado

tem onda que bate forte
quase quebra a gente
no meio
~~
mas uma vez imersa
o corpo tem outro peso
transfigura-se o tempo
suspensa lentamente
transcendo
~~
ainda que se contorçam
músculos
em movimentos
bruscos
nos envolve
a rede líquida
uterina

fora, o mar
estronda como um rugido
e nesses quase-afogamentos
diários
sentimos o sal
que ainda habita
debaixo da língua

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piscianas

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                                                                                              para Daisy Serena

I

atravessamos o oceano à nado
e de fôlego em fôlego
recriamos ritmo de
respiro
~
aprendemos flutuar
e ofertar às vezes
o corpo à dança das marés
mas mãos que abrem águas
já (pres)sentem na ponta dos dedos
os grãos da beira

II
corpo-vivo deságua na orla
sob o sol prateia
rebrilham escamas de pretume
sedenta, investiga com minúcia
tudo que vai entre
dedos, unhas & búzios
tudo é sal/areia
pr’além
memórias gustativas/táteis

em terra firme
cada pisada é funda
ainda que parecemos levitar

III
os cabelos avolumam-se como nuvens
ao sabor do vento
/
vagas vozes de sereia
pescam o olvido
/
maresia, cerração
o mar vem em tantos sentidos…

 

 

despertador

o galo me sobressalta

com seu canto:

desperta!

desperta!

mas não canta só inaugurando manhãs

canta no meio da tarde

quando cai a noite

em plena madrugada

como um cuco desregulado

me lembra de quando em quando

que é hora de pegar a foice

e me debruçar sobre o árduo trabalho

de carpir o que tem sobrado

e pro trabalho ser completo

regar o solo fazendo a carpideira

e chorar lágrima por lágrima

tudo que morre

desperta!

desperta!

saio ciscando

com prontas esporas

preparo o terreiro

enquanto corre o tempo depenado

meu trabalho diário

é cuidar penas e plumas

alcançar resiliência enquanto me estendo até as extremidades

adornar-me

calcular o atraso das regras

derramar o sangue na terra

tentar me alimentar nas horas certas

semear e colher cada grão de mim:

minha oferenda

minha consciência

faço a cabeça e na crista da onda

bocejo longamente

e quando com os olhos quase-pregados

o galo canta

e seu canto reverbera

em outro canto do mundo

desperta!

desperta!

 

cinzas

memórias ébrias

de poeirapurpurina

& amnésias

não pagam pão

migalhas

valem quanto pesam:

confete & confissões de festa

algum combustível barato

que mantenha acesa a chama

que queimará por uns dias

o cinza da cidade

a falta de fé na humanidade

o turbilhão de ansiedade

que é ser colombina sempre se esquivando

de sagazes arlequins

e no auge da festa arranca-se

roupas & máscaras

transborda-se gozo, gorfo e lanças

-perfume barato

o que sobra é a carne

– sem aval não avance –

valsemos em meio a poeira e purpurina

essa eterna dança

de corpos ébrios sem esperança