tramas mitológicas

como boa Penélope

ajeitei provisões, ofereci afagos numa bandeja

garanti os afetos da despedida

soprei bons ventos à tua viagem

ó, querido Odisseu!

enquanto aventuras vivia,

aportava em terras distantes, com distintas gentes

superava ou era suprimido por monstros gigantes

se expunha ao canto das sereias

conquistava a todos

com instrumentos e armas que tão bem manuseias

eu, como boa Penélope,

tecia a espera

nesse entremeio de tempo

(que parecia uma eternidade…)

desemaranhava essa história

meticulosamente, minúcia a minúcia

liguei os pontos, entendi a trama!

fingia com sabedoria tecer durante o dia

mas à noite desmanchava cada sonho

de vão enlevo que me foi dado

não pra espantar pretendentes

já que não espero quem me pretenda

mas quem entenda

era a minha história que eu tecia

no lugar da sua

pontos cheios de significado,

caprichosos bordados, às vezes até sem agulha

munida apenas de meus dedos gozava

àquela costura deliciosa de meus retalhos

fazendo-me plena, tecido inteiro

textura incrivelmente verdadeira

mas em seu regresso

ó Odisseu, já quase inesperado

(e nossa… nessa brincadeira

nem vi o tempo passar…)

não mais te reconheço

a não ser pelo jeito de sempre, sorrateiro…

nessa terra você é estrangeiro

pra você não sou tocável.

ter o poema nas mãos

nas mãos trago marcas

de colisões e fogo

o tempo ensina a paciência de colar os ossos

religar falanges

– ainda que tortos, tão meus –

de acompanhar a recomposição

de cada estrato do tecido da pele

da ferida em flor, cicatriz

– nova-textura –

descasca o esmalte, retoco

aprendo a fechar e erguer o punho

o soco

alinhar com destreza os dedos

aprendo a abrir as mãos

e deixar que fluam

como torrentes

as palavras, os gestos

que me inundam

l i v r e m e n t e

deixo marcas pelo mundo

nas mãos trago garras

e arranhões

ora (me) escapo

ora agarro (-me)

a minha própria pele

embalo d’Oxum

~~~

depois de caudalosa chuva

vejo minhas

raízes alagadas

de molho descansam nervos

pés e mãos

o coração vaga

levitando entre ervinhas

ouve-se apenas

o reverberar das barbatanas n´água

a calmaria é tanta

que me vejo espelhada

em minha própria superfície

sou sol, correnteza mansa de nuvens

ouro, barro

pedrinhas do fundo do rio

adentro

sou constante movimento

frescor

nunca a mesma

exercícios de aterramento

I
às vezes o contato se dá pela queda
comendo poeira
rasgando a pele
quebrando a cara no solo
mas a terra nos acolhe
bebe nosso choro
pra que possamos descer
camadas e mais camadas
sem medo
meditar enquanto tecemos nossas asas
e rebrotar
rompendo o asfalto


II
em tudo que se junta há fissuras
e fusões indissolúveis
cuido das rachaduras de meus pés
com óleos extraídos de raízes
profundas e (quase que)esquecidas
nas linhas de minha sola
há caminhos de todo o meu corpo
tanto se evita aterrisar
as bordas sempre querem alçar vôo
mas lembro que um passo bem dado
envolve o pé todo


III
distraio-me com qualquer folha que passa
passo-me para o futuro
querendo viver pr’além de mim
onde estou quando estou lá?

cá me encontro
ainda no mesmo lugar
e o pensamento looonge
mas também longe adentro vou
caçando palavras telúricas
enquanto moldo com as mãos
meu presente