canto pra erê subir

 

{para Deborah Erê, irmã de agora e além-tempo}

 

preparo o terreno

– o terreiro –

antes de lançar

a voz no vento

as sementes na terra

incorporar

o que dança

corpo adentro

 

canto pra erê subir

plantando bananeira

a menina alcança

o ventre da terra

acorda ancestralidade

 

chama o invisível

convoca a criança

cria, crias

põe graça nos sentidos

com o corpo

faz ponte entre

chão &

transcendência

 

~

        rodopia

e sobe poeira

nascente risonha

espelho de cores

do céu

~

e assim

desaprender o tempo

ser mais caos que cronos

perscrutando estrelas

renascendo luz

devorando a própria cauda

alimento próprio

corpo leve. sagrado. terreno.

criadora de si

criadora de mundos

 

canto pra erê subir

riscando no solo

o início, as direções, o tempo

toda ela brinca a vida

se expande

transitória & enraizada

falando a língua do vento

me chama pra dança

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jogo da vida

quantas casas teremos que voltar
pra chegar em algum lugar
?
onde vamos
parar.
[era uma casa muito engraçada…]
contagem regressiva
até que se acabem
os números
até quando.
seremos números
?
inválidos
votos, ex-votos
faltam dedos
nessa reza
línguas cansadas da mesma ladainha
faltam passos
pra reconhecer
o caminho de volta
falta estrutura
pra reconhecer os corpos
[mais uma vez]
queima de arquivo
apagamentos históricos
tiros sem silenciador
[e como dormir como este barulho?]
mas há punhos
ora cerrados, ora cortados
interrompe-se
o fluxo
o fio do pavio
está aceso
[salve-se quem puder?]

essa conta não fecha
ciclo entrecortado
bocas entreabertas

até quando
faltarão palavras
faltarão forças
faltarão vidas
faltarão
?

a fruta do meu paraíso

não me proíbo

provar

da árvore

do

{auto}

conhecimento

degusto-me

sem pressa

tocando

em pontos

sensíveis

tirando com os dentes

a casca

escorrendo por

texturas

tantas

        ~ a cobra

morde

o próprio

rabo ~

refaço-me

em cada gesto

falo com as mãos

: corpo movente

não cabe em si

busca salto e voo

freme ao vento

voz que rasga o ar

com silêncio :

alimento-me

de um amor

doce e suculento

que dou em

minha própria

boca

mas nunca me satis-

faço

devoro-me:

enigma e esfinge

não vá fundo em mar que não conhece

por que insistia em apagar

minha pegadas

?

por que falava tanto

dos meus pés

dos meus caminhos tortos

do meu ritmo

lento

?

suspensa

te vejo

lá embaixo

pequeno

quase-nada

.

o que resta

é cinza

horas-mortas

mas que adubam

minhas raízes

ao tentar me roubar

o tempo

pois enquanto ressignifico

passado-presente-futuro

mais terra-e-céu

adentro

me espalho

rio

porque nunca chegaste

perto

do que em mim há

de indescritível

riqueza incrustada

e cresço a olhos

vistos

~~

pelas costas

te vejo

como me vias

[espelho do avesso]

as notícias do teu nau-frágil

me chegam

(já avisto as braçadas

cansadas, fraco)

com a naturalidade

das ondas

trazendo conchas

pra areia

e como aqueles

que se encantam com o

rabo da sereia

e não ouvem

o que está no seu canto

quando menos

dão por si

:

engolidos

triturados

regurgitados

:

pra você

meu corpo está fechado

na minha poesia

só entra

pela porta dos fundos