crescente fértil

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foto: Carina Castro

enquanto estendo as roupas
no varal
torço
pra que não chova
enquanto eu estiver fora
seria toda uma tarde enxuta
encharcada
tem também aquela goteira
insistente
pra amparar
pode vir de vento
sem aviso
dependendo da força
entra pelas frestas
da janela
inundando dentro
enquanto se acaba
a civilização
lembro que tenho que me virar em comida
pra suprir fomes alheias
confirmo no calendário o dia que o gás acabou/
localizo a lua crescente
– tempo certo –
pra cortar
os cabelos
pra que cresçam
subo a ladeira quase-sem-fôlego
me sinto sedentária
lembro que tenho
um corpo
mas não lembro
quando assentei poeira no chão
finquei raízes
ergui e pari o mundo
[e o que fez de mim a civilização?]
concebia-me sem pecado
e me embalava com muita graça
quando não temia
a época das cheias
que batiam no peito
não dava pé e não sabia nadar
que vinham
lavando e levando tudo
trazendo feras
peixes à beira da loucura
num transbordar infinito
prateando tudo até que tudo apodrecesse
tornando a lama, lume
crescente fértil
leito de nanã
dou de beber a tantas sedes
que a estiagem sempre é certa
corro pra tirar as roupas do varal
mas no fundo quero
que meu corpo encharque

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enleio, desfio

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DESAPARECIDA
se lia nos postes
e voltava mil vezes
o caminho
mil e uma vezes
repensava
até re-
lembrar
quem era
percorri a memória das ruas per-
correndo memórias
do próprio corpo
lia nas linhas
de cada mão
de força&massa
edificação
vagava
pelos próprios labirintos
e deixava
que o tempo
voltasse-e-passasse
como o vento
perpassando pele&pêlo
em cada poro
origem, diáspora, refúgios
cicatrizes, suturas-históricas, desvios
em cada estria
do tecido da pele
narrativas, línguas, vozes
que se pronunciavam enquanto
depuravam, debulhavam, desencardiam
– – – – mãos puídas tramam – – – –
<<< pés-quilombos >>>
{encontro-me outra}
alcanço a fibra, a fímbria. res-
suscito o próprio ânimo
restituo em mim o enigma
renasço ancestral

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poema de carina castro, foto de luís bahú