estopim

há bocas que comunicam fogo
e embebida em fúria inflamo
a boca fala do que o coração está cheio
palavras explodem pouco pacíficas
no entanto existe o tempo de gestação
de
cada
palavra
tempo de sorver
cada
palavra
talhar na madeira
com ponta afiada
tecer cada enlace de sílaba
cada curva de linha
ruminar
cada
ramo
linguístico
plantar
pacientemente
esperar
e colher no tempo
presente-maturado
cada
palavra
despretensiosamente
emergida
soar tão sutil
que apague o fogo

elementar

para K. Rosa

escolhemos as frutas
desfrutamos o presente
desfolhamos fatos
como se vissémos um antigo álbum de fotos

lavamos e fervemos os legumes
nos alimentamos

há fartura nos gestos quentura nas palavras que jorram de bocas que jorram sorrisos
fonte inesgotável de
toques-
curativos
costuras
linhagens-ancestrais-
e-futuras
cíclicas
lavramos
e com sangue fertilizamos
a terra

sobre ela não pesamos
há espaço para um respiro
profundo

sopramos
uma
dos olhos
da outra
nuvens e ciscos

o tempo está aberto
enfim podemos mirar a lua
plenas
de nós mesmas

spiritual

 

te aceno do outro lado da margem

mas não sei como transpor esse

rio

de palavras

ditas não ditas

vez ou outra versadas

 

engulo o choro

pra lubrificar a garganta

dissolver o nó(dulo

molhar por dentro

 

brota em mim uma delicadeza

bruta

e enquanto cresce corpo acima

caminho sobre as águas