finitos fios

Foto2060

nasceram-me os primeiros fios brancos
traçam eles o tempo em minha cabeça
meu tempo é sem tempo e vagaroso
na verdade já apareceram outra vez
mas arranquei
todo mundo diz que quando a gente arranca
nascem três no lugar
imagino minha mão imensa
adentrando a terra
e arrancando as ervas daninhas
que sempre são tão graciosas
são dois fiozinhos inocentes
graciosos
que me fazem pensar
numa linha que me costura por dentro
e sobra a ponta do fio pra fora
me fazem pensar no branco que me dá
imagino minha cabeça rodeada de névoa
como se eu fosse a serra do mar
meus cabelos brancos de orvalho, cristais
me fazem pensar em todas as vezes
que passei em branco
que deixei a folha em branco
que amanheci
penso num campo de trigo
que quiçá nunca verei
e como um dente de leão
me espalho com sopro
e penso numa fenda
contrastada na escuridão onde não habitam olhos
penso nas mãos que me trançaram os cabelos
e cuja a cabeça era a flor do algodão
penso em cãs e como gosto de usar essa palavra
e da palavra da poeta de alvas cãs
vejo linhas brancas onde escrevo as entrelinhas
penso em quantos virão, em quanto tempo
quanto tempo demorou pra aparecerem
quanto tempo demorei pra aparecer
pra sumir
a visão que se descolore ao olhar pra trás
e não enxergar mais quem vivia em sua cabeça
são dois fiozinhos
cada um nascido em um aniversário meu
nascem enquanto renasço
e me fazem pensar que não sou a mesma
nem os de sempre são os mesmos
nem os pensamentos são os mesmos
de quando não habitava minha cabeça
dois singelos e simbólicos fios brancos