Fantasia: o delírio e as cinzas

Favela com tintureiro -Heitor dos Prazeres

Favela com tintureiro -Heitor dos Prazeres

O OUTRO CARNAVAL

Carlos Drummond de Andrade

Fantasia,
que é fantasia, por favor?
Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?
Ou antes, e principalmente,
brinquedo sigiloso, tão íntimo,
tão do meu sangue e nervos e eu oculto em mim,
que ninguém percebe, e todos os dias
exibo na passarela sem espectadores?

 

 

EVOCAÇÃO

Carina Castro, Caravana

 

Manuel, as pombas

estão comendo os confetes!

Sai desta tumba!

Bota uma fantasia!

Olha as pessoas nas ruas, nos ônibus:

pierrôs, palhaços, papangus com sua terríveis

castanholas,

abelhas, tigresas, minnie’s e uma triste

colombina.

 

Faz calor, tua cidade está ainda

mais velha, mas há cores

há o metrô se queres chegar mais rápido,

mas ele vai pra lugar nenhum.

 

Os pregões não são mais os mesmos

de certo, mas podes tomar uma cervejinha gelada,

lhe fará bem!, a oferta é tanta,

e tem salgados a preços módicos.

 

Os metais do frevo já estão fervendo,

mas não se empolgue tanto,

não precisa entrar na banda,

cuidado com os pulmões!

 

A cidade continua velha

e sempre será antiguidade,

não se assustará tanto.

Traga uma marchinha

improvisada no bolso.

 

Sentimos falta da tua

companhia impagável.

Debaixo das cascas das paredes

está o tempo

e a tinta da restauração

não apagou tua memória,

no letreiro luminoso

de algum ônibus ainda

verá a Rua do Sol,

e em meio a festa verá

tua infância, ainda há muitos

paralelepípedos e vielas.

 

Há meninos de rua lá,

mas seremos todos meninos de rua.

Vem, Manuel, que a 4ª feira se aproxima,

e ninguém ainda viu nas ruas a fantasia de poeta.

 

 

 

FANTASIA NA PRAIA

Carina Castro, Caravana

 

a beira praia meio-dia posto

a fantasia rota,

odores sudoríparos

 

a cidade em festa despeja sobre si o que da festa sobra

 

os lixos maleavam com as ondas

chinelos, cabelos, destinos, plásticos em desuso

e os barcos

 

trazia ao corpo a guardachuvista

azul e vermelho ~o céu bem limpo, o sol queimando~

os cabelos desgrenham-se com o sopro dos monstros marítimos

 

os olhos afogados

 

apregou-se à fantasia, incorporou a roupa da puída personagem

nem mais usada em carnavais

 

areia, vestígios de si

 

as ondas, os dejetos

 

 

 

EPÍGRAFE
Manuel Bandeira, Carnaval
 
Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e per-
guntou tristemente – se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do
frangalho de fantasia do que do seu ar de extre-
ma penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sor-
riso se lhe transmudou em ricto amargo. E os
olhos ficaram baços, como duas poças de água
suja…Então, para cortar o soluço que adivi-
nhei subindo de sua garganta, puxei-a para ao pé
de mim, e com doçura:
– Tu és a minha esperança de felicidade e
cada dia que passa eu te quero mais, com perdida

volúpia, com desesperação e angústia…