Caravana, o livro: pronta pra partir

Depois de um processo que envolveu um percurso em mim, recorrendo às minhas memórias, impressões, vivências e fantasias, concluí Caravana, meu primeiro livro de poesia, e resultado do meu encontro com a poesia já há algum tempo, pois os poemas que vão nele vêm desde caminhos percorridos quando nem idealizava o livro, mas que já indicavam estar vindo de uma mesma percepção poética; e os poemas que compus pensando no lugar estético para onde convergiu o livro, porque sim a poesia conduz (e é ela quem me conduz) e veio me guiando por esta matéria do vagar.

E este locus poético se faz não só de paisagens, mas da travessia em si, e não poderia estar dissociado das minhas experiências, desde a infância fui habituada às viagens, também por vir de uma família que parte se espalhou pelos estados e cidades (e outra que fixou-se na origem) como acontece com grande parte dos nordestinos que migram pelas diversas partes deste território continental, enfim, minha experiência enquanto andarilha, mochileira, amante das viagens, do desbravar, mergulhar, mover-me, ver, e um cotidiano quase nômade, dividida entre lares, pousos e transportes.

E é assim que eu vejo o Caravana, como um transporte, aliás, o que me levou de encontro ao título (já que este se descobre e se encontra no próprio livro), primeiro foi a realização de um poema, de mesmo título, que me trouxe em outra perspectiva a atmosfera do repouso da caravana, que é o momento onde a poesia, a música, o canto, as trocas humanas acontecem. E também me levou ao título observar que cada poema é como se fosse um transporte, carregados de símbolos, pesos, cores e texturas diferentes, porém unidos, partes de um mesmo fim, fio, pra mim ficou claro então que o livro representa nada menos que uma caravana! Além do fato de que cruzar assim, como um só corpo, o deserto, o branco das margens, o vazio e a extensão a perder de vista, é mais seguro.

O livro abre também quatro portas, portais, ou corredores de mirada e sensação, que seriam algo como capítulos ou seções (e por que não sessões?), que eu intitulei “De onde vim”, “Cidades sem nome”, “Orientar” e “Fantasia”, que resumindo muito, configuram estados dentro da viagem, o primeiro seria algo ligado às ancestralidades, à minha origem íntima, como poeta, as inspirações e o histórico do itinerário enfim, uma apresentação; o segundo seria algo como relatos dos lugares enquanto espaços citadinos que eu vi e inventei; o terceiro traz algo de espaços simbólicos rumo ao Oriente; e o último envolve diversas metáforas, mas seria um momento de delírio, entre a festa e as cinzas, onde a roupa que nos disfarça é a que nos desnuda.

E o resultado do livro pronto, que até mim aporta já pronto para zarpar novamente, em busca de novos olhares, desta vez os que lerão, e ser a viagem, as paisagens e percursos dos leitores, me agradou tanto-tanto, principalmente pela cara de caravana que ficou, com a participação de amigos queridos na complementação do livro, e os que me acompanharam nas minhas leituras de mim mesma, e souberam opinar pra eu encontrar o tom, e também, com esses todos e outros, espero, este livro vai, não uma multidão dispersa, mas um grupo coeso ao destino de caminhar, e do mesmo modo que não quero aqui dar pistas ou um destino à leitura, são apenas impressões minhas sobre o meu fingir, e este tempo que passei imersa nestes lugares-meus, convido então a comigo partirem nesta viagem sem coordenadas, e se orientar pelo que surgir perante a vista, ainda que miragem.

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