Conto premiado!

Conto premiado!

Que alegria! Meu conto infantil “Bem debaixo do nariz” ganhou o concurso literário que homenageia Matilde Rosa Araújo, uma grande escritora portuguesa de Literatura Infantojuvenil, sua obra é linda. Ganhei representando o Brasil, dos países de Língua Portuguesa.

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عيون الطفولة *

Imagem

 

Abriu os pequenos olhos grandes

como nozes abertas, com a cor do deserto, com as cores das imensidões pardas

e olhou o céu como se olhasse dentro de um grande envelope pardo

como se visse sua profundidade

e de lá caíram mensagens luminosas, sonoras, estapafúrdias

o chão então desfez-se em areia sob seus pés, pequenos pés pacíficos

o envelope também caiu, agarrou-o e fez dele um barco de papel pardo

para navegar sobre o mar de areia

o sol lançava suas pontas afiadas de luz

fechou os grandes olhos curiosos, mas olhos curiosos não deixam de ver

a pálpebra avermelhou-se, via um sol de sangue colorindo suas pálpebras pardas

 

* olhos da infância – Aiun al-Tufulat

Besouro – Tesouro

“A natureza ali me dava uma espécie de embriaguez. Atraíam-me os pássaros, os escaravelhos, os ovos de perdiz. Era milagroso encontrá-los nas quebradas, brônzeos, escuros e reluzentes, com uma cor parecida com a do cano de uma espingarda. Assombrava-me a perfeição dos insetos. Recolhia as madres de la culebra. Com esse nome extravagante se designava o maior coleóptero, negro, luzidio e forte, o titã dos insetos do Chile. Dava calafrios vê-lo de repente nos troncos dos arbustos, das macieiras silvestres e das estevas, mas eu sabia que era tão forte que se podia ficar com os pés sobre ele que não se romperia. Com sua grande dureza defensiva não precisava de veneno.

Estas minhas explorações enchiam de curiosidade os trabalhadores. Logo começaram a se interessar pelas minhas descobertas. Assim que meu pai se descuidava, largavam-se pela selva virgem e com mais destreza, mais inteligência e mais força que eu, encontravam para mim tesouros incríveis. Havia um que se chamava Monge. Segundo meu pai, um perigoso cuchillero. (1) Tinha duas grandes linhas na cara morena. Uma era a cicatriz vertical de uma facada e a outra seu sorriso branco, horizontal, cheio de simpatia e picardia. Monge me trazia copihues brancos, aranhas peludas, filhotes de pombas, e uma vez descobriu para mim a coisa mais deslumbrante: o coleóptero do cohiue (2) e da luma. (3) Não sei se vocês já o viram alguma vez. Eu só o vi naquela ocasião. Era um relâmpago vestido de arco-íris. O vermelho e o violeta e o verde e o amarelo deslumbravam em sua carapaça. Como um relâmpago me fugiu das mãos e voltou à selva. Monge já não estava perto para recapturá-lo. Nunca me refiz daquela aparição deslumbrante.”

1 – Cuchitlero: que é hábil, em brigas, no manejo da faca (cuchillo) como arma. (N. da T.)

2 – Cohiue: (Bot.) variedade de esteva pequena, própria dos Andes Patagônicos. (N. da T.)

3 – Luma: (Bot.) árvore chilena, da família das mirtáceas, que cresce até 20 m de altura, de madeira dura, pesada, resistente; madeira desta árvore. (N. da T.)

Pablo Neruda, “Infância e poesia”, in Confesso que Vivi

24 voltas em terra conhecida

Queria encontrar um poema que lembrasse

o evento de minha vida mais uma vez

se confirmando vida.

Queria lembrar do poema que mais gosto

para poder postar postais de mim.

Queria celebrar com todos as vinte e quatro horas deste dia,

para saldar os vinte e quatro anos de minha vida

em minha mais recente vida.

Não sei se uivo à minha noiva lua,

se calculo quantas de suas fases nestes anos

viram minhas faces.

Quantas voltas será que dei em torno

do meu coração?
Quantos sóis giraram a volta de mim?

E quantas eram aquelas folhas que vi cair?

Os presentes são estas presenças

amigas, amáveis, amantes

neste meu presente.

Minhas mãos estão abertas,

com algumas mãos me enlaço,

e abre-se em mim mais uma vez

mais uma vez.

Aqui vai meu coração.

Poema partido de fotografia I

Poema que fiz inspirada nesta foto de Luís Bahu, tirada na aldeia indígena Guarani-Krukutu em Paralheiros – SP. A ideia é experimentar, como um desafio, com as duas linguagens artísticas, a maneira como o olhar se manifesta em cada uma delas tomando-se o olhar do outro. Neste exercício brincamos com nossas habilidades e podemos perceber como se cria uma imagem com palavras, e narrativa poética que há na imagem. O próximo passo deste projeto será a foto a partir do poema.

INVÓLUCRO

 

} O miolo foi para o miolo

E a casca fica para a casca

 

Passado o tempo, passado

E beija o solo o corpo desossado

E come poeira a boca desalmada

 

Varrer o chão de Shiva

E a poeira cósmica

Decompor o corpo celeste

 

Andar de pés descalços

como um deus despreocupado

Despir-se da fome

e adubar o apetite da terra {