Ritmo de pôr ou adágio em giz de cera laranja e gris

Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.

E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar”

Ezra Pound

CIDADE LAMINADA PAUSA

A CÂMERA LENTA, O SOBREVOO:

ESQUECIDOS PÁSSAROS BRANCOS

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Agora até as musas mudas cantam a primavera

AS MUSAS CEGAS II 

Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça –
e as palavras nascem.
– Límpidas e amargas.

Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E as estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria –
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.

– Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, de grau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.

É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. – É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.

Herberto Helder

Coisologia

Imagem: Caderno de Poesia, de Flávia Lhacer e Vanessa Rozan

Imagem: Caderno de Poesia, de Flávia Lhacer e Vanessa Rozan

Há quem tenha o costume de colecionar coisas, e um tipo de colecionamento interessante é um que é quase um tipo de coletagem de coisas que já cumpriram seu ciclo na natureza, como guardar folhas caídas, asas de borboleta já fenecidas, sementes (mas sem plantar), penas, pétalas, pedras, conchas. Coletar coisas que não brotarão mais em nada. É uma espécie de relicário de memória da natureza, mas esta mesmo não guarda sua memória, o sentido das coisas irem se transformando em outras menores, irem pro solo, secaram, virem do mar pra areia mostra que o movimento da natureza é justamente este de transformar as coisas cada vez mais até se findarem. E onde fica esta memória? Fica no ar, e o questionamento também.

Mas existe aqueles que de alguma forma tentam armazenar a beleza que há nestas coisas em processo. É uma forma também de levar consigo a memória de onde se tenha passado, memória dos passos, memória do que foi passado, passado. Curioso como a palavra passos está realmente relacionada com passado, e deve-se passar, passar e levar consigo o passado da natureza? Se este não for na verdade o presente, afinal, o que passou passou, de fato, o que fica é o aspecto desgastado que é até bonito, guarda-se o presente da natureza e o impedimos de virar futuro, e assim o eternizamos. Ou não, já que este desvio no curso destas coisas, feito por nós humanos, as retirando do seu ambiente original, alterará seu movimento apenas alguns tempos, pois na verdade não paramos seu movimento, ele continua e só para quando o objeto não mais existir, e tem boas chances de nós acabarmos antes deles, e talvez eles é que serão a nossa memória por mais um tempo.

Eu já tive uma ampla coleção de conchas, hoje deve haver apenas cacos, e posso dizer que os melhores presentes que ganhei foram desta estirpe: conchas, pedras e folhas, que já somam uma coleçãozinha. Quando criança tinha mania de pegar vez ou outra alguma das conchas da minha coleção, aquelas compridas e rosadas, das que mais tem na praia (ao menos no litoral paulista) e escrever à lápis na parte convexa meu nome junto ao de alguma pessoa querida, pintar com lápis de cor e presenteá-la, de vez em quando topo com algum destes tesouros da memória pelos fundos de gaveta.

Mas uma coisa curiosa que li foi o que se passou com o poeta Pablo Neruda, a quem eu daria uma dessas conchas personalizadas, e que também tinha paixão pelas conchas, tanto que foi um assíduo colecionador, tendo em sua coleção “as espécies mais raras dos mares da China e Filipinas, do Japão e do Báltico; caracóis antárticos e polymitas cubanas; ou caracóis pintores vestidos de vermelho e açafrão, azul e cor de amora, como bailarinas do Caribe”. A coisa foi crescendo tanto que ele mesmo diz “exagerei esse caracolismo até visitar mares remotos. Meus amigos também começaram a buscar conchas marinhas e se encaracolar”. Sua fama de malacólogo, ou caracólogo, como se chama a ciência que trata disso, se espalhou e chegou a se equiparar com sua fama de poeta. Porém, um dia, soterrado por conchas e mais conchas e livros e mais livros a respeito delas, resolveu encaixotar tudo e doar para uma universidade do Chile, que recebeu com “louvores e discursos e sepultou-os no sótão”, parece que nunca mais foram vistos, mas quem tiver notícias me avise!

Bem, creio que chegou o final da reflexão, pois a conclusão me chega agora: tudo isso é mesmo matéria de poesia.

Recolher

O mais estranho naquele jardim selvagem era que, intencionalmente ou por descuido, havia somente amapolas. As outras plantas tinham-se retirado do lugar sombrio. Algumas eram grandes e brancas como pombas; outras, escarlates como gotas de sangue, ou cor de amora e negras como viúvas esquecidas. Eu nunca tinha visto tanta quantidade de amapolas e nunca mais voltei a ver. Ainda que as olhasse com muito respeito, com certo supersticioso temor que só elas infundem, entre todas as flores, não deixava de cortar de vez em quando alguma, cujo talo quebrado deixava um leite áspero em minhas mãos e uma lufada de perfume inumano. Acariciava e guardava em um livro as pétalas suntuosas de seda. Para mim eram asas de grandes mariposas que não sabiam voar.

Pablo Neruda,

em ‘Confesso que vivi’

Marulho

Sua cabeça cheia de trópicos e vento

minha orelha e sua orelha ouvem as ondas no labirinto

palavras de mar

em minha cabeça mares de palavras

o barulho caucário dos seus dentes no seu sorriso

sua voz, um fio de vento com cores sonoras amarra meu pensamento

seus passos andam a deixar também meus passos pelos chãos:

seu corpo corado carregando um coração comigo dentro

pés-peixes, escama-se os dias

a areia do tempo molhada, a tarde cor de nácar

colher as pedrinhas das águas, trazer os pedaços do chão que te viu lembrar de mim

memória dos teus passos

a sua memória na minha memória