Pedaços da América em cores

“Milho…

Punhado plantado nos quintais.

Talhões fechados pelas roças.

Entremeado nas lavouras.

Baliza marcante nas divisas.

Milho verde. Milho seco.

Bem granado, cor de ouro.

Alvo. Ás vezes vareia,

– espiga, roxa, vermelha, salpintada”

Cora Coralina “Poema do milho”

A fronteira se delimita com a mudança de caras e cores. Conforme se sobe delineando as montanhas andinas as pessoas quietas nos ônibus, que vão por estradas que mais parecem fios de terra, contemplam a paisagem de longe azul ou gris, e de perto verde ou marrom, ou colorada, e como deve sentir o sol se encostando em suas costas a montanha das sete cores? Uma terra com tantos matizes também brota em cores, há milhos brancos, amarelos, vermelhos, pretos e todas estas cores mescladas, se alimentam de cores os filhos de Pachamama e oferecem o sangue encarnado de suas lhamas para ajudar no tingimento.

A bandeira Wiphala tremula no céu, que quase toca a ponta das cordilheiras, junto à bandeira boliviana, é o arco-íris representando a união das nações indígenas. Vez ou outra a quietude quebrava-se por gritos “pollo, pollo, pollo!” Eram as cholas, que mais pareciam bonecas de pano: vestem saias que são camadas e camadas dos mais diversos e incrementados tecidos, a descombinação das cores casava as mais interessantes combinações, (e é incrível como possuem a arte de harmonizar todas as possíveis cores os tecelões andinos), nas cabeças chapéus, e duas tranças negras unidas uma à outra, suas faces textura de pano coradas. E lá dentro as mais curiosas comidas eram oferecidas para todas as bocas, pelas bocas com sorriso de ouro, nas paradas dos ônibus.

Um deserto branco, todo feito de sal, uma laguna colorada e outra verde, flamingos e seu rosado. Natureza liberta para tingir as coisas fora das ordens. Quatro jovens amigos, dois brasileiros, dois argentinos resolvem se embrenhar Andes adentro, Camino del choro, os pés dos quatro amigos caminharam quatro dias e não descansaram mais, tornaram-se inquietos. No primeiro dia de caminhada tudo era branco e alto, neve, o ar era raro, todas as impressões pareciam apenas impressão no meio da neblina. No segundo dia chegou-se a um verde amarelado e marrons de lãs e lhamas, corroídas ruínas incas, e uma casa apenas no povoado, uma placa azul dizia “aqui nacio la comunidad inti warawara yassi – bendecida por la nevada del cielo, para ser guardian de los arboles, los animales, el agua, el aire, los niños”. Prosseguiram, e saindo de lá o mato era vermelho da mesma cor das calças das crianças, que em basbaque, de longe nos olhavam passar. No terceiro dia era o verde e as borboletas, contornava-se a cordilheira recoberta de árvores e mais árvores, estreita estrada até um pouso, onde havia uma grama verdíssima e crianças coloridas, brotando do meio das montanhas, com sorrisos brancos e milho nos dentes. E depois a mata úmida, o seio da selva os recebia com cipós e a água que vinha dos olhos do céu, escorrendo pelo rosto da montanha. E sempre se chega em algum lugar, e se é recebido com algum vegetal de cor inesperada.

Quantos mantos cobrem as costas dos povos andinos, e carregam neles os olhos dos bebês, a única parte que se vê com eles enrolados lá dentro, e pesos imensos, parecem carregar as montanhas para expor nas ruas assim como os pães, carnes, folhas, frutas, temperos e todos os tipos de utensílios possíveis, carregam o mundo nestes mantos, mantos fúcsias, azuis profundos, púrpuras puros, verdes verdejantes, amarelos sóis, e caminham tranquilos levando em si cores que parecem terem brotado do ventre da terra.

Subir ao Machu Picchu, escalar os ares, mirar de cima o cimo das montanhas, uma cidade vazia, coberta por uma rede de ar e verde, um verde extinto. Descer o Machu Picchu pode trazer a surpresa de se deparar com um grande pássaro turquesa, talvez os deuses que restaram, um Quetzal esquecido, na memória irá ficar, impregnando-a com a sua cor rara. E deixar esta terra deixa nos olhos um tom furta-cor.

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Contemplação

passei, a gente toda passa

os pássaros passaram

a balança com a menina balança

outras cores chegam no céu de seda

a pipa escorrega de lá

nem vento, nem ruga n’água

só nos dedos da velha que passa

e pega do chão a flor pisada

e leva

e no fim o pouso

e o repouso

Pajarístico

OBSERVACIONES RELACIONADAS CON LA EXUBERANTE
ACTIVIDADE DE LA “CONFABULACION FONETICA” O “LENGUAJE
DE LOS PAJAROS” EN LAS OBRAS DE J.P.BRISSET, R: ROUSSEL, M:
DUCHAMP Y OTROS

a. A través de su canto los pajáros
comunican una comunicación
en la que dicen que no dicen nada.

b. El lenguaje de los pájaros
es un lenguaje de signos transparentes
en busca de la transparencia dispersa de algún significado.

c. Los pájaros encierran el significado de su propio canto
en la malla de un lenguaje vacío;
malla que es a un tiempo transparente e irrompible.

d. Incluso el silencio que se produce entre cada canto
es también un eslabón de esa malla, un signo, un momento
del mensaje que la naturaleza se dice a sí misma.

e. Para la naturaleza no es el canto de los pájaros
ni su equivalente, la palabra humana, sino el silencio,
el que convertido en mensaje tiene por objeto
establecer, prolongar o interrumpir la comunicación
para verificar si el circuito funciona
y si realmente los pájaros se comunicán entre ellos
a través de los oídos de los hombres
y sin que estos se den cuenta.

NOTA:
Los pájaros cantan en pajarístico,
pero los escuchamos en español.
(El español es una lengua opaca,
con un gran número de palabras fantasmas;
el pajarístico es una lengua transparente y sin palabras).

Juan Luis Martínez

Passo comum

Foto: Luís Bahú

Foto: Luís Bahú

e tudo é tão mecânico
e tem em tudo tanto mistério

a pomba que se apoia sobre o pé embolado
um choque: e nada de novo (muda) em seu ciscar tranquilo
um par de tênis pendurado nos fios elétricos
os pés invisíveis pairam
e que presságio, que história traz?

os remédios não servem para os debeis por algo mais,
é mais fatídica a dormência que a dor
uma bala embalada pendula nos fios elétricos
o sabor do tempo conservado
e que lenda é ela, que tradição?

uma menina diante da janela cibernética o mundo vê,
um velho cospe da varanda à rua, num hábito comum
de alívio
a senhora abençoa o neto na partida
num gesto comum do verbo na mística ancestral

e do outro lado da rua um sonho em forma de automóvel
cor de prata
no moço que vai não sei pra onde um pensamento vai
a mecânica e os pomos impalpáveis da ciência

quão alto voara aquele pipa?
carcaça de seres celestes
voando preso aos fios elétricos

a energia vai para os destinos impregnada do mistério
do comum das ruas

uma bola no campo rola
pelo asfalto desembola
e os muleques são irmãos
e são astros do faz de conta
televisivo das ruas

e como eu palmilhasse um chão comum
sigo com os olhos pensos sobre esta poesia
comum…