braba

de cócoras investigo o chão

tentando encontrar aquilo que me compõem

onde se derrama e abraça frestas

a parte mais bruta de mim

 

raiz

 

o caminho tem sido tão florido quanto tortuoso

minha travessia tem sido parir

o que o corpo já não comporta

e depois acolher e nutrir

 

chorei com aquela mulher

que encontrei no deserto

em estado de calamidade e força visceral

e juntas cantamos cantigas ancestrais

pra colar nossos ossos

reconstituir a carne

 

ainda ouço o uivo

em noites em que a fome de correr um mundo tão selvagem quanto meu

não dorme

 

talvez seja preciso mamar nas tetas da loba

para fundar uma nova cidade

em mim

 

farol

esperamos os feixes de luz

do farol abrir uma fresta

no mar noturno

cada uma a sua vez

de dentro da concha

(a)guardamos

o fisgar do sol

da manhã recém-nascida

nos atemos atentamente

ao respirar que move

o corpo

emitimos apenas

o canto que embala

dos mais brutos e instintivos

à delicadeza do sal

tocando a ponta dos dedos

ao secar as lágrimas mais

pequeninas

de dentro da concha

cuidamos da preciosidade de cada

banalidade

antes que o sonho se esvaeça

o choro acorde

e o leite empedre

{…}

o mar estira-se depois

que as ondas se encorpam  

o corpo estria-se quando

a pele se espraia

 

a espera escapa

das mãos

feito água

atravessa o tempo

suspensa entre

o útero e as mãos

que recebem

 

“atrevete a flotar…”

 

contrações intensificam-se

em ondas

sempre passamos

por dias de mar bravo

bravíssimo

 

pra não me afogar no ar

respiro

 

descontraio enquanto

 

TEMPORÃ

o tempo cresce dentro de mim

e eu me torno deusa, tempo, criadora

tateio até tocar o silêncio

que se refugia bem-dentro

quase inalcançável

 

em matéria de maturidade

sempre fui a fruta

, como diz a minha mãe,

que fica escolhida

embora apreciada como desfrutável, palpável

-estranho fruto –

porém a mente sempre foi temporã

 

mais chaos que chronos

 

corpo-templo, corpo-tempo

tento me realocar no tempo

no meu tempo

no tempo do meu fruto

suprir, suprir

ventre & veias as mais fininhas

curar com aquilo que exala e tem raiz

tal ensinam as mais velhas

pretas velhas, caboclas

sou minha própria benção

vibro, há muita vida em mim

 

sou uma mulher de meu tempo

sobrevivo a golpes

ouso vislumbrar um futuro

denuncio as misérias

de meus contemporâneos

e também me dou ao luxo de

escrever poesia

de amar

me amar

& procriar

(por desejo, não obrigação)

um novo tempo.

 

as palavras que me compõem

 

fuga nº2

retomo nas mãos os passos

que deixei pela noite

as palavras que deixei

pelo caminho

 

encruzilhadas

cruzam

meu corpo

 

reabro os caminhos

manipulo metáforas

poema terminado é gozo

quer correr pro mundo

quer antes percorrer

as vielas de dentro

esgueirar-se

corpoadentro

 

dou vida

às palavras-vento

insubmissas, irrepreensíveis

juntas nos jogamos

fuga nº1

a palavra é esse cavalo

selvagem

que tento montar

 

incorporar

o que me foge as mãos

o que toma minha cabeça

me eleva

 

me leva ao chão

de onde recomeço

 

nesse arfante

ato eróticoespiritual