piscianas

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                                                                                              para Daisy Serena

I

atravessamos o oceano à nado
e de fôlego em fôlego
recriamos ritmo de
respiro
~
aprendemos flutuar
e ofertar às vezes
o corpo à dança das marés
mas mãos que abrem águas
já (pres)sentem na ponta dos dedos
os grãos da beira

II
corpo-vivo deságua na orla
sob o sol prateia
rebrilham escamas de pretume
sedenta, investiga com minúcia
tudo que vai entre
dedos, unhas & búzios
tudo é sal/areia
pr’além
memórias gustativas/táteis

em terra firme
cada pisada é funda
ainda que parecemos levitar

III
os cabelos avolumam-se como nuvens
ao sabor do vento
/
vagas vozes de sereia
pescam o olvido
/
maresia, cerração
o mar vem em tantos sentidos…

 

 

despertador

o galo me sobressalta

com seu canto:

desperta!

desperta!

mas não canta só inaugurando manhãs

canta no meio da tarde

quando cai a noite

em plena madrugada

como um cuco desregulado

me lembra de quando em quando

que é hora de pegar a foice

e me debruçar sobre o árduo trabalho

de carpir o que tem sobrado

e pro trabalho ser completo

regar o solo fazendo a carpideira

e chorar lágrima por lágrima

tudo que morre

desperta!

desperta!

saio ciscando

com prontas esporas

preparo o terreiro

enquanto corre o tempo depenado

meu trabalho diário

é cuidar penas e plumas

alcançar resiliência enquanto me estendo até as extremidades

adornar-me

calcular o atraso das regras

derramar o sangue na terra

tentar me alimentar nas horas certas

semear e colher cada grão de mim:

minha oferenda

minha consciência

faço a cabeça e na crista da onda

bocejo longamente

e quando com os olhos quase-pregados

o galo canta

e seu canto reverbera

em outro canto do mundo

desperta!

desperta!

 

cinzas

memórias ébrias

de poeirapurpurina

& amnésias

não pagam pão

migalhas

valem quanto pesam:

confete & confissões de festa

algum combustível barato

que mantenha acesa a chama

que queimará por uns dias

o cinza da cidade

a falta de fé na humanidade

o turbilhão de ansiedade

que é ser colombina sempre se esquivando

de sagazes arlequins

e no auge da festa arranca-se

roupas & máscaras

transborda-se gozo, gorfo e lanças

-perfume barato

o que sobra é a carne

– sem aval não avance –

valsemos em meio a poeira e purpurina

essa eterna dança

de corpos ébrios sem esperança

 

tramas mitológicas

como boa Penélope

ajeitei provisões, ofereci afagos numa bandeja

garanti os afetos da despedida

soprei bons ventos à tua viagem

ó, querido Odisseu!

enquanto aventuras vivia,

aportava em terras distantes, com distintas gentes

superava ou era suprimido por monstros gigantes

se expunha ao canto das sereias

conquistava a todos

com instrumentos e armas que tão bem manuseias

eu, como boa Penélope,

tecia a espera

nesse entremeio de tempo

(que parecia uma eternidade…)

desemaranhava essa história

meticulosamente, minúcia a minúcia

liguei os pontos, entendi a trama!

fingia com sabedoria tecer durante o dia

mas à noite desmanchava cada sonho

de vão enlevo que me foi dado

não pra espantar pretendentes

já que não espero quem me pretenda

mas quem entenda

era a minha história que eu tecia

no lugar da sua

pontos cheios de significado,

caprichosos bordados, às vezes até sem agulha

munida apenas de meus dedos gozava

àquela costura deliciosa de meus retalhos

fazendo-me plena, tecido inteiro

textura incrivelmente verdadeira

mas em seu regresso

ó Odisseu, já quase inesperado

(e nossa… nessa brincadeira

nem vi o tempo passar…)

não mais te reconheço

a não ser pelo jeito de sempre, sorrateiro…

nessa terra você é estrangeiro

pra você não sou tocável.

poema manuseável

nas mãos trago marcas

de colisões e fogo

o tempo ensina a paciência de colar os ossos

religar falanges

– ainda que tortos, tão meus –

de acompanhar a recomposição

de cada estrato do tecido da pele

da ferida em flor, cicatriz

– nova-textura –

descasca o esmalte, retoco

aprendo a fechar e erguer o punho

o soco

alinhar com destreza os dedos

aprendo a abrir as mãos

e deixar que fluam

como torrentes

as palavras, os gestos

que me inundam

l i v r e m e n t e

deixo marcas pelo mundo

nas mãos trago garras

e arranhões

ora (me) escapo

ora agarro (-me)

a minha própria pele

embalo d’Oxum

~~~

depois de caudalosa chuva

vejo minhas

raízes alagadas

de molho descansam nervos

pés e mãos

o coração vaga

levitando entre ervinhas

ouve-se apenas

o reverberar das barbatanas n´água

a calmaria é tanta

que me vejo espelhada

em minha própria superfície

sou sol, correnteza mansa de nuvens

ouro, barro

pedrinhas do fundo do rio

adentro

sou constante movimento

frescor

nunca a mesma