das formas de dizer mar

às vezes pra dizer mar

a gente diz pedra

outras tantas

a gente diz

repouso

revolta

resgate

as ondas em rebuliço

revolvem as conchas

do fundo

e nos ofertam

nossa própria preciosidade

 

~ devorar o mar

como quem devora

a palavra peixe

a carne se desmancha

antes de se dilacerar

a palavra nos dentes ~

 

às vezes do mar

a gente só tem o gosto

 

. palavras’alinas .

 

trituramos os grãozinhos

arenosos dos dias

quase imperceptíveis

debaixo da língua

 

temperamos o tempo

com sal grosso

refinamos a calma

 

e como quem pesca

estrela marinha no céu da boca

fisgamos

a memória do movimento

do que ondula na saliva

 

~~

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chuvosa

em dias feitos de chuva

me (en)torno aguaceiro

em torno de minha cama um alagado

pegadas de água por todos os cômodos

as horas escorrem

o dilúvio dos olhos

 

o silêncio respinga-se

com gotículas de quieto-espanto:

bebo o silêncio que há

debaixo das águas

 

que caem

caem

incessantemente

caio

 

em plena lama floresço

me torno esta quietude caudalosa

reverberando ondinhas

~~~

não sei mais se pluvial ou fluvial sou

o ciclo

é outro

 

[tempo fechado]

 

de molho

me dissolvo em insignificâncias

que apertam o peito

 

]tempo aberto[

 

úmida

navego por minhas reentrâncias

como nunca antes

flutuo em meu silêncio

Carina Castro

3 poemas inéditos na revista escamandro! ❤

escamandro

fotografia: luís bahú

Carina Castro (SP, 1988) é poeta, pesquisadora e artivista cultural. É autora do livro de poesia Caravana (Editora Patuá, 2013). Se dedica também aos textos para crianças e jovens, ganhou o Prémio Lusofonia de Portugal (2012) na categoria conto infantojuvenil; de lá pra cá muitos textos engavetados, alguns publicados em revistas digitais e antologias diversas, entre elas a mais recente É agora como nunca (Cia das Letras, 2017). Com Deborah Erê criou o selo de publicações independentes & intervenções gráfico-poéticas Selenitas. É idealizadora e atuante no coletivo de feminismo, arte-educação & infância Espaço Marciana. Atualmente escreve seu próximo livro e ministra oficinas de criação literária para mulheres e crianças. Seus textos e trampos podem ser encontrados internet afora no blog: Tudo é Coisa  e nas páginas: Caravana – poéticas de Carina Castro & Selenitas

***

afiadas

bem sabemos manusear facas
nem sempre na cozinha, meu…

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IMG_0117

Foto: Luís Bahú

                                          tem sangue eterno a asa ritmada {Cecília Meireles}

tão suscetível ao vento
mal parece vir
do sufoco
de tão bem embrulhado
breu

todos os olhos
são pouco
pra tanta
miragem

re(pouso breve
em linhas, texturas & cores
no rastro

arrastar o peso
do próprio corpo
carregado de tantas
tantalizações
até alcançar
leveza

tão vívida
que mal parece
vir de
pequenas-mortes

[é tempo…]

visto minha estrutura
óssea
com poesia & pétalas
fazendo as vezes
de asas

in dolor

tem dores que latejam
juntinho do osso
 
e aprendemos a sorrir
mesmo assim
 
gengiva exposta
falta chorar
 
de rir
mostro os caninos
quando desestruturada
a gente fica sem cara
 
e aquela dor canina
insiste
a gente
insiste também
 
sem anestesia
sente fundo a dor até não sentir mais
 
espinha ereta
nadamos do âmago
ao mar aberto
 
até que possamos levitar
e carregar os próprios ossos

desdobramentos

me desdobro
troco as dobradiças
das portas emperradas
muito óleo para a secura dos dias
/ar-ti-cu-la-ções/
jogo de cintura
hay que fortalecer as juntas meio desconjuntadas
)abrir passagem(
preciso ainda
derrubar paredes
cortar o cabelo
as unhas, os vícios
as más companhias
o passado
com força sobre-humana
me reergo
quando estou derrubada
consolido-me
|
até a próxima queda
|
me levanto
tododia
até o próximo sonho
ao sabor do insondável
firme na constância das vagas
corpo entregue/imprevisível
a procura de respiro
sopros
|
queimando as retinas
nos ecrãs da vida
livros inter-
minados
por ler
por escrever
pernas por fazer
me recubro apenas
de mim mesma
são tantas as camadas
descamação da epiderme
troco de pele
|
me desdobro
em quantas?
quanto tempo ainda tenho?
depois de
/amanhã/
antes de
/ontem/
não cabem nos dedos de duas mãos
tanta palavra socada
pra dentro
no decorrer dos dias
decorro
escoo-me
em banho maria
deixo os nervos des-
cansando
enquanto entorno o caldo
noturnamente
|
des-
culpo-me
des-
culpo-me
de quantas em quantas palavras?
de quanto em quanto tempo
des-
cobro-me?
com empenho
tento
alcançar leveza
sem levar chumbo
dividir as cargas
dis-
tensionar o corpo
des-
dobrar-me
em posição fetal
|
do útero tiro forças
para mais um passo
mais um sonho
sus-
piro…
a l o n g o – m e
mais um es-
forço-
me
para fechar
as pálpebras
descansar em paz
|
adormecer
o que está sempre acordado
corpo adentro
no inconsciente
o mar
{sempre o mar…}
impulsos felinos
portas e mais
portas
pessoas e mais
pessoas
paredes intermitentes
tanta estrada de terra:
há caminhos
|
des-
dobro a língua
em sílabas cismadas
escritas tão reais
quanto oníricas
tão densas quanto
sutis
des-
enrolo-me
em fios
onde tranço
minhas partes
en-
fim membradas.