cheia

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me olhei no lago da lua
e me vi refletida
cheia
estanquei o sangue que ali lavava
mês a mês
dispenso o que me fere
o que não passa da superfície
pois gota a gota
preencho minhas lacunas
e o que vem ao encontro, é transbordar
vivências em abundância
estou cheia até a boca.
~
de palavras férteis, fartas
tenho me nutrido
habito um novo mundo
onde no espelho me admiro e acordo sonhos profundos
no leito em que produzo
leite & mel 

fio de contas

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foto: Anderson Mendonça

miro minhas mãos abertas tentando discernir

quais linhas me contam, e em quais me conto

tento me atentar à labuta diária de separar o joio do trigo

(ao mesmo tempo que rego ervas daninhas…

tão bonitinhas algumas…)

enfio as unhas entre as miçanguinhas do cordão

no pescoço

fazendo ritmo

/mania nos gestos/

conto as horas

cato o feijão

tento separar o que vejo, do que reflito

diante do espelho

do que me perscruto, inspeciono

olhares outros…

)preciso criar o entre para me perceber(

o que é minha língua entre tantas con-

fusões?

gasto saliva em versos no idioma que invento

{quem me decifra?}

§

busco o fio perdido

sinais

vestígios, referências

históricas

que falem sobre nós

não por nós

amarras, armadilhas

espero plantada mud’anças

movimentos dispersos

em direção ao sol

§

em exercícios matinais

me liberto minúcia a minúcia do que me cerca

{o que mora nos detalhes}

 

me aparto

 

… cravar limites sem me partir ao meio

resgatar semente sem machucar

muito

a pele.

em punga!

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Foto: Aline Penteado

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em punga: mãos firmes nas rédeas, pés alados, mas bem encaixados no estribo. postura pronta. atenta! armada. – ainda que pareça desacelerada, o corpo todo acordado está: reverbera, galopante – língua devidamente afiada. cruza meu peito armadura leve. tem o peso de uma folha: instrumento de corte. meu semblante sereno espelha tal lâmina o olhar de quem me encara. meu corpo-templo protejo com todas as minhas forças. sutis & brutas. dentes se preciso eu mostro, nem sempre num sorriso. aberta brilho em ouro e chamas, afago & afetos providencio. mas vez em quando o tempo fecha, com o olhar lanço flechas. faço meu solo sagrado: cuidados por onde passo. cuidado onde pisa! não ando só.

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TSUNAMI

para Aline Penteado

tem onda que bate forte
quase quebra a gente
no meio
~~
mas uma vez imersa
o corpo tem outro peso
transfigura-se o tempo
suspensa lentamente
transcendo
~~
ainda que se contorçam
músculos
em movimentos
bruscos
nos envolve
a rede líquida
uterina

fora, o mar
estronda como um rugido
e nesses quase-afogamentos
diários
sentimos o sal
que ainda habita
debaixo da língua

piscianas

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                                                                                              para Daisy Serena

I

atravessamos o oceano à nado
e de fôlego em fôlego
recriamos ritmo de
respiro
~
aprendemos flutuar
e ofertar às vezes
o corpo à dança das marés
mas mãos que abrem águas
já (pres)sentem na ponta dos dedos
os grãos da beira

II
corpo-vivo deságua na orla
sob o sol prateia
rebrilham escamas de pretume
sedenta, investiga com minúcia
tudo que vai entre
dedos, unhas & búzios
tudo é sal/areia
pr’além
memórias gustativas/táteis

em terra firme
cada pisada é funda
ainda que parecemos levitar

III
os cabelos avolumam-se como nuvens
ao sabor do vento
/
vagas vozes de sereia
pescam o olvido
/
maresia, cerração
o mar vem em tantos sentidos…

 

 

despertador

o galo me sobressalta

com seu canto:

desperta!

desperta!

mas não canta só inaugurando manhãs

canta no meio da tarde

quando cai a noite

em plena madrugada

como um cuco desregulado

me lembra de quando em quando

que é hora de pegar a foice

e me debruçar sobre o árduo trabalho

de carpir o que tem sobrado

e pro trabalho ser completo

regar o solo fazendo a carpideira

e chorar lágrima por lágrima

tudo que morre

desperta!

desperta!

saio ciscando

com prontas esporas

preparo o terreiro

enquanto corre o tempo depenado

meu trabalho diário

é cuidar penas e plumas

alcançar resiliência enquanto me estendo até as extremidades

adornar-me

calcular o atraso das regras

derramar o sangue na terra

tentar me alimentar nas horas certas

semear e colher cada grão de mim:

minha oferenda

minha consciência

faço a cabeça e na crista da onda

bocejo longamente

e quando com os olhos quase-pregados

o galo canta

e seu canto reverbera

em outro canto do mundo

desperta!

desperta!